Naïf Gendarme

23 23UTC dezembro 23UTC 2009

Num condomínio

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 9:17

Acabo de mandar sair daqui

dois pobres. A mulher grávida, quase

parindo, e o marido eu nem vi

direito. Os retratos do atraso

desta nação. Graças a Deus subi

ao meu apartamento, este palazzo,

inteiro e vivo. Talvez fosse o caso

de dar algum a eles… Mas mereci

tudo que tenho! E agora, dissipar

meu patrimônio, construído em cima

do meu trabalho, entre os vagabundos?

Não, é só minha esta vista do mar.

É uma vergonha que ninguém reprima.

Cadê o governo? Não tem jeito este mundo.

*

Acabam de sair daqui três caras

que queriam saber onde encontrar

um tal de “Rei Nascido”. Olha, repara

muito bem, se eu me deixo enrolar.

Eu sei que só queriam me roubar.

Um rei recém nascido? É muita cara

de pau. Ainda por cima, tinham para

o tal rei ouro, incenso, e o quê? Ah,

sim, mirra. O que é mirra? Que conversa.

Disse pra eles: “Vão, vão procurar,

venham logo depois me dizer onde

ele está, quero honrá-lo, tenho pressa!”

Se for mesmo um bebê, melhor matar

agora, antes que cresça e entre no bonde.

*

Um anjo acaba de sair daqui.

Anunciava uma grande alegria

que era para todo o povo. Xi,

eu não gosto de povo. Dá azia

até lembrar do povo. Uma vez vi

uma velha sem dentes, na Bahia,

toda alegrona. Aê, Jesus. Podia

vir alegrar a mim, que sei que oui

é como os franceses dizem sim,

que tenho plano de saúde e moro

num condomínio ao nível da minha classe.

Mas um anjo pro povo, e com latim -

Gloria in excelsis Deo - incenso, ouro

e mirra! Não sei bem pra quê, mas passo.

*

Olha só quem chegou: Papai Noel!

Pela janela, pois a chaminé

ainda não ficou pronta. Olha o céu

como está estrelado! Quanta fé

nos une neste mesa! Ah, o meu

presente é uma beleza! O teu é

também! A ceia está servida. Quer

peito ou coxa? Ano que vem, eu

pretendo tantas coisas. Uma delas

é ser mais generoso. Não que agora

eu me sinta egoísta, estou bem, mas

nunca é demais, né? Acende aí as velas.

Menino, para de comer! Não ora

antes da ceia? É assim que se faz!

Poema de Natal – Jorge de Lima

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 8:18
Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto das crianças.
Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei Corcovado.
E quem passar
vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!
— Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
— Bom dia, Jesus! – dirá uma voz.
E outras vozes cochicharão:
— É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!
— Como está forte! – Nada mudou!
— Que boa saúde! Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)
Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
— É o menino do carpinteiro!
E quando voltarmos
pra casa, à noite,
e forem pra o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.
Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
Segure com força a minha mão.

16 16UTC dezembro 16UTC 2009

Eu tenho cabelocom

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 7:57

Estive pensando em abrir um restaurante que servisse apenas sopas e caldos. Quem viesse comer escolheria  a partir de um caldápio.

*

Davi, aparentemente, começou a compor. Procurei os versos nas internets para ver se é plágio – até onde o google me diz, não é. Sua primeira música é assim:

C                     F

Eu tenho cabeeeeelo

C                 F

Você é careeeeeeca

C                 F

Eu sou boniiiiiiiiiito

C              F

e você é feiooooooooso

(bridge: C Dm F G Dm A F G7)

*

Só para constar, o careca não sou eu. Meu cabelo continua o mesmo.

10 10UTC dezembro 10UTC 2009

Dicta & Contradicta

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 11:00

Na edição 4 da Dicta & Contradicta, você pode ler seis poemas inéditos que estarão em meu próximo livro, “A Canção do Pão Líquido”. Veja aqui e compre aqui.

20 20UTC outubro 20UTC 2009

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 19:31

Quando eu era adolescente, gostava de ir a um shopping próximo da escola e ficar no café, onde normalmente eu pedia um café simples que vinha com um par de biscoitos amanteigados. Eu ficava lá, sentado, escrevendo e desenhando, observando as pessoas que vão ao shopping fazer o que quer que as pessoas façam no shopping – provavelmente as mesmas coisas que eu faço, hoje que não há mais o café nem os biscoitos amanteigados naquele canto onde, se eu fumasse naquela época em que eu não me lembro de ser proibido fumar no shopping, eu comporia uma imagem demasiado cliché, exceto pelos meus 16 anos, inaparentes na minha altura e barba da época. Fui bem alimentado durante a infância e tenho a barba de muito boa qualidade, sempre tive, desde que ela começou a nascer, já uniforme e progressivamente enchendo o rosto até atingir o seu apogeu, que se mantém até hoje. Mas enfim, eu ia ao shopping, bebia café e isso provavelmente tinha seu charme, ou pelo menos o momento e lugar seriam bem apropriados para eu fazer o famoso sucesso entre as mulheres, o que de fato eu fazia, pois era mais divertido que apenas sentar e beber café. Uma vez uma moça aparentemente 5 anos mais velha que eu parou em frente ao balcão, e ficou ali fingindo não saber o que queria, porque na verdade ela estava obviamente interessada em mim, o que os fatos posteriormente comprovaram – acompanha. Ela estava lá, toda cheia de dúvida, e eu disse “não sabe o quer? prova isso” e ela pegou a minha xícara sem hesitar, provou e pediu o mesmo que eu pra moça do balcão, esta feinha que doía e muito antipática. Era café, e quando veio café simples ela disse que não, que estava errado, porque o meu era completamente diferente, etc e eu disse para ela sentar na mesa, peguei os biscoitinhos que vinham junto com o café e joguei dentro da xicara e perguntei se ela estava com a mão limpa. Ela disse que sim, então eu esperei dois minutos e a fiz misturar tudo com o dedo, o que ela achou ainda mais nojento que jogar biscoitos no café, mas por algum motivo fez tão direitinho quanto um adolescente com bastante habilidade, e chupou o dedo melhor do que eu o teria feito, não fosse um cavaleiro e soubesse onde aquele dedo havia estado antes de totalmente cercado de café e biscoitinhos amanteigados derretidos. Acontece que biscoitos amanteigados = açúcar + gordura + amido, quero dizer, o efeito dos biscoitos no café era o mesmo de adicionar creme, adoçá-lo um pouco mais e tornar o conjunto todo mais espesso, por causa do amido; se duvidar, pegue uma embalagem destas de sopa instantânea, e está lá o amido, o ingrediente mágico que transforma um caldo de temperos vagos em um grosso e confortável creme. O amido é o melhor amigo do fabricante de comida. O fato é que o café dela ficou idêntico ao meu, porque é isso mesmo que eu fazia, jogar os biscoitos dentro e mexer com os dedos de uma moça bonita ou com uma colher, na falta de moça bonita. Ela ficou lá, sentada ao meu lado, bebendo o café cremoso mais estranho da vida dela até então e, na falta de pão de queijo, me comendo com os olhos. Depois de uns 10 minutos, pegou uma caneta na bolsa, anotou o telefone no meu caderno, levantou e foi embora.

21 21UTC setembro 21UTC 2009

Minera, mineiro

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 20:46

Estou em Belo Horizonte, participando de uma exposição / congresso / feira da indústria de mineração. Os interesses dos participantes dividem-se de acordo com a lista abaixo:

a) Recepcionistas bonitas: 55%
b) Chopp de graça: 67%
c) Coffee breaks e cocktails: 94%
d) Brindes: 89%
e) Minério e extração: Pela minha amostragem, ainda 0%

ó, Minas Gerais, quem te conhece nansquece jamais

24 24UTC agosto 24UTC 2009

Meu nome

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 12:07

O doido dos pés – uma pessoa, pra dizer o mínimo, heterodoxa – um provocador tolo – um provador de bolo: Já ouvi pessoas se referirem ao Alex Castro nestes termos ou em outros parecidos, e se estive com ele uma vez, num aeroporto, durante dez minutos – o tempo de receber uma encomenda que ele estava trazendo para mim, e de dar o lugar para ele ao lado do motorista, no carro da empresa, para levá-lo para casa com suas bagagens. Eu voltei pra casa de ônibus naquele dia (o carro era um daqueles em que só andam duas pessoas), e quase não pensei no Alex. Uma vez que eu pensei nele, tempos depois, tinha a ver com charutos, que é uma coisa que eu gosto e tem muito em Cuba, onde uma vez esteve o Alex Castro, que escreveu um livro. O livro se chama “Mulher de um homem só” e você pode comprar se procurar o link certo no site dele, do Alex Castro, o autor de “Mulher de um homem só”. Eu li este romance pela primeira vez em 2004, antes de ler direito o LLL. Li de novo em algum momento entre 2004 e 2009, porque o tinha impresso e achei por acaso, e tinha que fazer uma viagem de 2 horas de ônibus e tinha que ler alguma coisa no caminho, então vai ser isso mesmo. E li de novo agora, porque ele mandou o romance pra gráfica e falou que, se eu ajudasse a pagar, ganhava uma cópia com meu nome escrito.

O livro é bom, mas o melhor é meu nome impresso. Gosto tanto de ler meu nome impresso que imprimo várias vezes meu nome, hoje com uma fonte e amanhã com outra, e fico lendo. E olha que meu nome nem é bonito, imagina se fosse. Tem uns outros nomes perto do meu dos quais eu gosto, e até um que eu pensei em roubar, mas ai lembrei que o dono atual tem prova impressa de que antes de ser meu, era dele, então continuo com o nome de sempre, que se não é o máximo, pelo menos é meu, e já tenho ele impresso em várias folhas em vários lugares. De vez em quando aparecem uns papéis na minha caixa de correio com meu nome, pedindo para eu pagar por isso. O nome às vezes vem caro, não acredito que custe tanto escrever um nome num papel e mandar por correio, mas como eles dão eletricidade e telefone de brinde, por exemplo, eu acabo pagando.

Enfim, eu gostei também muito de uma parte do livro que o Alex escreveu a mão, porque tem o meu nome lá e até que a letra do Alex é engraçada, e também é bom ler meu nome numa letra engraçada. Quando eu for mecenas do próximo livro do Alex, quero que ele escreva meu nome em Comic Sans. Outra parte do livro que eu gostei é quando ele diz que é flamenguista e tem um cachorro chamado Toby (ai q fofinhooooo).

Se o livro é bom? Sei lá, não sou mulher para saber. Mas eu gostei, ou não teria lido três vezes e dado de presente. Não vou falar nada sobre o enredo, os personagens, o texto, porque muita gente já fez isso e é fácil de achar por aí. Mas se quiser falo de novo: Gostei do livro; e se isso significar que o livro é bom, então é bom. Leia, e se não gostar dê para alguém ou jogue fora. Ou use para recortar as letrinhas e colar formando seu nome. Disso eu gosto também.

5 05UTC agosto 05UTC 2009

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 19:44

Religião a sério (tive que segurar uma mão com a outra para obrigá-la a escrever este “a sério”)ou desculpa para gays andarem por aí de toga?

http://www.antinopolis.org/

DISSERTE PFV

27 27UTC julho 27UTC 2009

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 13:33

Topei nem sei mais há quantos meses num sebo com dois livros que comprei porque não comprar seria idiota, cada um por 2 reais: “O Jovem José” e “José, o Provedor”, metade da tetralogia sobre o patriarca José, de Thomas Mann. Faltam-me o primeiro e terceiro volumes da narrativa, e resisto a comprar a edição atualmente publicada, já que a minha é bem antiga e o tradutor diferente.

Há muito tempo eu não sentia o que senti lendo estes dois livros: Uma vontade aparentemente insaciável de ler mais, outros livros do mesmo autor, com o mesmo tema, a ponto de estar prestes a, seguindo uma sugestão do John Santos, comprar um livro chamado “The son of Laughter” sobre Yitzhak, avô de José. Isaque, aliás, ou Isaac, merece um parêntese: O filho da risada é o menos alegre, o menos orientalmente exuberante dos patriarcas clássicos. Neste livro, do Frederick Buechner, aparece este Isaac melancólico, calado, e quase suicida, e Deus por vezes é chamado de “The Fear” – designação bem apropriada para um Deus que andara quase sumido desde muitas gerações, desde séculos de paganismo e de culto a Baals, Istares e Adonais, e que voltava a aparecer, timidamente: Na boca de Enós, na companhia de Noé, na amizade de Abraão e no terror de Isaac.

Após a amizade de Abraão e o medo de Isaac, chegamos ao vencido de Jacó: Deus começa a se mostrar vencido, submetido, obrigado a uma bênção que não se pode apagar – e que não irá apagar: A descendência dos patriarcas, numerosa a não se poder contar, permanece abençoada eternamente. E o maior deles, segundo o instalador da nova e eterna aliança, viu o seu dia e alegrou-se.

Os filhos daquele que manteve Deus submetido por uma madrugada, e cobrou a bênção, atraindo o favor do Altíssimo sobre a humanidade, ou sobre uma fração que seria, por séculos, a quintessência da humanidade – a bênção que custou uma coxa, um coxear – seus filhos já seriam mostra do novo favor de Deus. E em José, temos a escrita máxima de Deus, a mão que escreve nas paredes do palácio do tempo o que quer, como quer e quando quer. A escolha humana, a direção óbvia, são coisas que para Deus podem ser alegremente desprezadas. E a primogenitura e sua bênção vai para onde decide o grande decididor.

Os personagens de José e seus Irmãos, quase sempre, não são os mesmos da Bíblia. Mas são (here´s the commonplace) maravilhosamente bem construídos, e por vezes magníficos; como quando, recebendo as vestes de José manchadas de sangue e julgando que “certamente uma fera dos campos o despedaçou, um leão o matou: Chorando descerei à tumba, e me ajuntarei ao meu filho, pois José já não existe mais”; Jacó entra em luto. Deixo um trecho:

“- Aí está o que é Deus! – repetiu com visível calafrio. – O Senhor não me perguntou, Eliezer, e não me ordenou como prova: “Traze-me cá o filho que mais amas!” Talvez eu fosse mais forte do que humildemente esperava e levasse o menino a Morija, não obstante a sua pergunta sobre o animal a ser imolado. Talvez eu pudesse ouvir tudo isso sem cair desfalecido, talvez pudesse erguer o cutelo sobre Isaac, fiado no carneiro. Seria uma prova. Mas não foi o que se deu, Eliezer. (…) Ora, deves saber que esta fera (leão) devora tudo e o devorou. Levou ainda para o covil um pouco de José para as suas crias. É concebível tudo isto? Pode-se aceitá-lo? Não, é impossível tragá-lo. Eu o cuspi para fora como os pássaros a penugem. E agora jaz aqui. Agora Deus faça disso o que quiser, que não é coisa para mim.

- Volta a ti, Israel!

- Não, não, eu perdi os sentidos, ó meu mordomo. Foi Deus que mos tirou, e agora escute ele as minhas palavras! Ele é meu criador, eu o sei. Mungiu-me como leite e fez-me coalhar como queijo, convenho. Mas que seria dele e onde estaria sem nós, sem meus pais e sem mim? Terá ele memória fraca? Esqueceu o tormento e a fadiga do homem por seu amor? Esqueceu como Abraão o descobriu e excogitou, tanto que ele pôde beijar os dedos e exclamar: “Finalmente me chamam de Senhor e Sumo”? Eu pergunto: Terá ele esquecido a aliança (..)? Onde está a minha transgressão, onde meu delito? Que mo mostre! Queimei incenso aos Baal da região (…)? (…) Eliezer, a aliança está violada! (…) Deus não andou a passo igual: entendes-me bem? Deus e o homem se escolheram reciprocamente e concluíram a aliança, a fim de que fossem retos um no outro e santos um no outro. Mas se o homem se tornou delicado e fino em Deus e de alma disciplinada e se Deus, ao contrário, lhe impõe uma coisa selvagemente horrível que ele não pode aceitar mas tem de cuspir fora e dizer: “Isto não é coisa para mim”, então é claro, Eliezer, que Deus não andou a passo igual na santificação, mas ficou atrás e é ainda um bárbaro.”

É claro que aqui o mordomo inicia uma defesa de Deus, e não lhe falta a lembrança de apelar ao Behemoth, como o próprio réu fará mais além, se não mais tarde, frente ao seu auto-proclamado juiz Jó. Esta defesa de Deus é cabível, e a justiça o pede, mas não a digito; primeiro porque já o faz a própria história de Jacó, que ainda haveria de encontrar José no Egito, primeiro abaixo do Faraó, e depois porque nada mais fizeram os anjos e santos que cantaram, e até hoje cantam “Santo, Santo, Santo, é o Senhor, Deus dos exércitos; os céus e a terra estão repletos de sua Glória”.

5 05UTC maio 05UTC 2009

Queijo

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 15:46

por G.K. Chesterton, publicado em `Alarms and Discursions’ (1910) – trad. Igor Barbosa

Minha próxima obra em cinco volumes, “O Desprezo do Queijo pela Literatura Européia”, é um trabalho tão imprecedente e laboriosamente detalhado que é de duvidar que eu consiga viver para concluí-lo. Podemos permitir, portanto, que algumas inundações de uma tal fonte de informação salpiquem estas páginas. Não posso ainda explicar completamente o desprezo a que me refiro. Poetas têm se calado misteriosamente sobre o tema do queijo. Virgílio, se bem me lembro, refere-se a ele várias vezes, mas com grande reprovação dos Romanos. Ele não se atira ao queijo. O único outro poeta, que eu me lembre agora, que parece ter tido alguma sensibilidade quanto a este tópico foi o autor anônimo dos versos que dizem “Se todas as árvores fossem pão com queijo” – o que é de fato uma visão rica e gigantesca da mais elevada glutonia. Se todas as árvores fossem pão com queijo haveria um considerável desmatamento em qualquer região da Inglaterra em que eu vivesse. Ferozes e fartas florestas escapariam de mim, tão rápido quanto outrora correram por causa de Orfeu. Exceto Virgílio e este poeta anônimo, não consigo me lembrar de nenhum outro poema sobre queijo. No entanto, tudo que se requer para a melhor poesia está lá. É uma palavra curta e forte; rima com “desejo” e “beijo” (um ponto essencial); e até as civilizações modernas concordam que tem uma sonoridade enfática. A própria substância é imaginativa. É antiga – às vezes no que se refere à unidade em questão, mas sempre quanto ao tipo e forma. É simples, sendo diretamente derivado do leite, que é uma das bebidas ancestrais, não facilmente corruptível com água gaseificada. Veja bem, eu espero que seja verdade (apesar de que foi só agora que pensei nisso) que os quatro rios do Éden eram leite, água, vinho e cerveja. Águas com gás somente vieram após a queda.

Mas o queijo tem outra qualidade, que é também a verdadeira alma do canto. Uma vez, batalhando para palestrar em vários lugares de uma vez, eu fiz uma excêntrica jornada através da Inglaterra, uma jornada de desenho tão irregular e mesmo ilógico que foi necessário que eu almoçasse por quatro dias seguidos em quatro tabernas de beira de estrada em quatro províncias diferentes. Em cada taberna só havia pão com queijo; e eu também não consigo imaginar porque alguém quereria mais que pão e queijo, se pudesse chegar a se fartar disso. Havia um nobre queijo wensleydale em Yorkshire, um queijo de Cheshire em Cheshire, e daí em diante. Ora, é exatamente neste ponto que a real e poética civilização difere desta civilização pobre e mecânica que nos escraviza. Maus hábitos são universais e rígidos, como o militarismo moderno. Bons costumes são universais e variados, como a cavalaria e a defesa de si mesmo. Tanto a boa quanto a má civilização nos cobrem como um teto, e nos protegem de tudo que está fora. Mas uma boa civilização se espalha sobre nós livre como uma árvore, variante e anárquica, porque vive. Uma civilização ruim se ergue e estica como um guarda-chuva – artificial, matemática no formato; uniforme, quando podia ser simplesmente universal. Assim é com o contraste entre as substâncias que variam e as que são as mesmas onde quer que se as encontre. Por um sábio imperativo celeste os homens foram levados a comer queijo, mas não o mesmo queijo. Por ser realmente universal, muda entre um vale e outro. Mas se compararmos, por exemplo, queijo com sabão (esta substância muitíssimo inferior), veremos que o sabão tende sempre a ser meramente sabão violeta ou sabão alfazema, remetidos logisticamente a todos os cantos do mundo. Se os peles-vermelhas usam sabão, é sabão violeta. Se o Dalai Lama usa sabão, é sabão alfazema. Não há nada sutilmente e misteriosamente budista, nada ternamente tibetano, no sabão dele. Eu suponho que o Dalai Lama não come queijo (ele não é digno de comê-lo), mas se comer é provavelmente um queijo local, com alguma relação real com sua vida e circunstâncias. Palitos de fósforo, comida enlatada, remédios pateteados são enviados ao mundo todo; mas não são produzidos no mundo todo. Portanto o que existe entre um tipo e outro destes produtos é uma mera identidade sem vida, nunca aquela quase invisível brincadeira das coisas que em todo canto são tiradas do solo, do leite no curral ou das frutas no pomar. Consegue-se um whisky com soda em todos os postos avançados do Império; por isso tantos imperialistas ficam loucos. Mas isso não é provar ou tocar um local, como na cidra de Devonshire ou nas uvas do Reno; isso não é se achegar a uma das nuances da miríade de cores que possui a Natureza, como no ato sagrado de comer queijo.

Quando eu fiz minha romaria pelas quatro tabernas de beira de estrada eu acabei indo a uma das grandes cidades do norte, e lá eu corri, veloz e inconsistentemente, para um restaurante grande e complicado, onde eu sabia que poderia comer muitas coisas além de pão com queijo. Eu podia comer isso também, aliás, ou pelo menos queria comer isso; mas fui secamente lembrado de que havia entrado em Babilônia, e deixado a Inglaterra para trás. O garçom me trouxe queijo, de fato, mas cortado em pedacinhos calculados; e o fato terrível é que em vez de um pão cristão, ele me trouxe biscoitos. Biscoitos – para quem tinha comido o queijo de quatro ótimas províncias! Biscoitos – para quem havia constatado novamente a santidade do antigo matrimônio entre o queijo e o pão! Eu me dirigi ao garçom em termos cálidos e sentimentais. Eu o perguntei quem ele era para separar o que o gênero humano uniu. Eu o perguntei se não sentia, como um artista, que uma substância firme mas maleável como o queijo combinava com uma substância firme e maleável, como o pão; comê-lo com biscoitos é como comê-lo com azulejos. Eu o perguntei se, ao rezar, ele era tão sardônico a ponto de pedir o biscoito nosso de cada dia. Ele me deu a entender, genericamente, que apenas obedecia um costume da Sociedade Moderna. Neste ponto eu decidi erguer a voz, não contra o garçom, mas contra a Sociedade Moderna, por este enorme e incomparável erro moderno.

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