Naïf Gendarme

23 23UTC agosto 23UTC 2010

Um Fevereiro – Segunda Edição

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 14:12

Aqui, mais informações sobre a segunda edição de “Um Fevereiro”. Compre um exemplar e depois um Kindle.

29 29UTC julho 29UTC 2010

Primeira palavra – Breve

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 15:17

I.
Há tantas palavras cujo significado é
suculentamente excessivo frente à sua
construção, às articulações que a língua
usa para construí-las, nada mais que som,

até que um ouvido as tenta decompor
numa imagem, num conceito, e defronta-se
com a incapacidade que o intelecto têm
de apreendê-los por inteiro, e de uma vez;

assim é que é difícil, mas deve-se tentar
dizer que, numa noite fresca de maio, estivemos

(que grande coisa é estar, quando comparada
com muito mais provável frequente não-estar,
isso esquecendo que uma noite fresca
de maio já é por si algo inexplicável)

eu e você – vamos em frente, como soldados
avançando centímetro após centímetro, sob
uma chuva de projéteis doidamente destinados
a qualquer crânio; fingindo que eu e você,

duas pessoas, são coisas que cabem em
duas palavras – frente ao altar de Deus

com o fim expresso e manifesto de deixarmos
de ser duas pessoas. A palavra estava lá
encimando as fatias do que foram árvores,
nos pensamentos dos que viam, e aqui

aparentemente é o ponto onde tudo deixa de ser
embaçado para se tornar incomunicável
(É inacreditável tanto exibicionismo, dizem
com razão as pessoas de mais bom gosto:

realmente é inacreditável e exibir-se
é componente fundamental de vários atos além deste).

II.
Este é o efeito do vento pelas portas laterais
desta pedra, este movimento
que acontece o tempo todo e que nos degraus
está cristalizado desde alguns anos atrás,

e que agora se repete conformando dobras
e ornamentando o sustento
obtido pela cooperação entre as colunas
que alguém montou no ponto ideal (entre as sobras

das paredes e os vãos das rotas de fuga
que conduzem a noção do corpo em fuga
para longe do corpo,
para longe).

27 27UTC julho 27UTC 2010

Carta a Tirésias

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 13:04

Eu, tendo decifrado e excogitado
o que o homem é, eu que à Esfinge
forcei a luz aos olhos, eu, coitado
de mim, a quem aquela luz atinge

em cheio e ilumina a razão morta
que em meus ossos se encontra sepultada,
e embalsamada espera atrás da porta
que a língua pode ser – eu, este nada

que o tempo esmaga e de quem corta,
por fim, a linha que o une ao chão,
tendo assim deplorado o que de torta
a minha vida fez-se, e com razão,

com bastante razão! Venho, Tirésias,
velho assunto, excelso, elevado,
subido, levantado (sobre mesas
de bar, mas mesmo assim), chefe de estado

do reino dos doidos ou da prisão,
cuspir-te à cara, ou pagar-te o tributo
do reconhecimento, meu irmão.
Ontem fui rei, e hoje estou de luto;

fostes profeta, e hoje és tanto quanto
eu cego, que eras ontem, pois fechavas
à tal luz os teus olhos. Eras santo,
na medida em que os teus sentidos lavas

desde então com as lágrimas dos deuses,
principalmente os olhos… Sinto falta
dos olhos. Eram-me tão bons às vezes,
usava-os para elevar-me na pauta

das coisas superiores, ou assim
acreditava, mesmo que de fato
por eles o que é chão subisse a mim.
Visão valeu-me, valha agora o tato.

Lanço as mãos ao mundo e espero
disso tirar proveito, não pessoal,
mas para meu país. Fira-me o ferro
com que feri, por usança do qual

caiu sobre este estado a vingança
dos deuses; fira-me como feri,
no modo, não no efeito: era criança,
quiseram-me matar, sobrevivi.

Toma como ventura, se quiseres,
o fato é que o fado assim dispôs.
Talvez fossem culpáveis as mulheres!
Uma que me pariu foi quem, dos dois

por quem fui concebido, alheou-se
ao amor maternal… E nunca mais
havia de me ver, ou antes fosse.
Vi-a mais de uma vez, vi muito mais

que o permitido, olhos em excesso
sobre olhos diluídos, olhos prontos
a plantar e colher, olhos de acesso
a todo o ser que havia, desde o ponto

central até o círculo mais amplo
que pudesse, encompassando e sendo
encompassado apenas pelo campo
pouco maior no qual os olhos, vendo,

deixam de lado o ato de ver,
o ato quase puro que ensinava
e agora engana e cria. De viver
assim morri. De uma rainha, escrava

de mil demônios fiz. De uma cidade
fiz a ruína. A um conselheiro
e membro da família, a maldade
que em mim se escondeu a vida inteira

acusou da mais vil das traições…
Eu que era feliz, eu que dispunha
dos olhos e julgava as ações
usando-os, arranquei-os com as unhas.

Restituo aos deuses a cidade,
ao exilado entrego seu governo,
retiro-me. Um deus piedoso há de
matar-me, e eu, uma vez no inferno,

terei tanta esperança quanto tive
sobre a terra, embora acreditasse
alguma ter. Todo homem que vive
sujeita-se ao destino, cuja face

não muda, não engana e não tem par.
Eu, tendo decifrado e excogitado
e conhecido o que se pode olhar,
nunca soube quem era. Triste estado?

Teria eu podido evitar?

16 16UTC junho 16UTC 2010

Lazarus

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 15:34

Poema de G.K. Chesterton, tradução de Igor Barbosa (aquele):

Depois do instante em que minha cabeça
se inclinou, e o mundo, girando,
se reergueu, por uma estrada brilhando,
tão brancamente antiga, entrei. Por essas
vias andei ouvindo o que falassem,
selvas de línguas, qual folhas em bando
caindo em março, estranhas, mal pesando;
velhos enigmas, novos credos, brandos
e sinceros, como rir de quem falece.

Todos os sábios tem mapas e crivos
para o cosmos rastejante inteiro,
peneiram a razão com gesto altivo
salvando a areia, e dourando o bueiro:
Para mim tudo isso é menos que poeira
porque meu nome é Lázaro e estou vivo.

25 25UTC março 25UTC 2010

A Esfinge

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 11:11

Estou traduzindo “The Sphynx”, único poema verdadeiramente bom do Oscar Wilde, na minha opinião, além da muito famosa Balada do Cárcere de Reading. Optei por mudar a métrica para fugir das palavras curtas, mais comuns na língua inglesa. Seguem algumas estrofes:

Na penumbra de um canto do meu gabinete, por mais tempo do que o que o pensamento atinge, assiste-me uma bela e silenciosa Esfinge entre a vaga tristeza a que o lugar remete.

Intacta e imóvel, ela permanece e não se move, pois a ela são negadas as luas que vagueiam pelo céu, prateadas, e os sóis também, que volteando, não perecem.

O céu se enrubesce, sua cor cinza se vai, as ondas do luar fluem, mas quando a Aurora faz a sua chegada ela não vai embora, e no mesmo lugar está quando a noite cai.

Manhãs seguem manhãs, noites vão pro passado, e enquanto isto esta interessante felina repousa num pequeno tapete da China, com olhos de cetim margeados em dourado.

Sobre o tapete ela repousa, com o olhar malicioso; e em seu pescoço, o pêlo escuro, macio e sedoso ondula, ou o duro ponteio das orelhas fica a encrespar.

Aproximai-vos, minha amável Senescal! Tu que és tão langorosa, tão estatuesca! Aproximai-vos, decorativa grotesca! Metade que és mulher, metade animal!

Aproximai-vos, lânguida, amável esfinge! Vem descansar a cabeça no meu joelho, com teu corpo pintado, do lince parelho, para que eu te acaricie sobre a laringe.

Mas tu consegues ler os hieróglifos que marcam o arenito dos obeliscos, e no teu tempo privaste com basiliscos, e também viste com teus olhos hipogrifos.

Diga-me, estavas perto, por algum acaso quando Isis em frente a Osiris se prostrou? Assististes quando a Egípcia desmanchou sua jóia para Antônio num cálice raso

E bebeu o seu vinho ébrio e perolado e pendeu a cabeça, vendo de um cardume o enorme procônsul recolher um atum, mimetizando em maravilho o seu estado?

Além disso, A canção do pão líquido e Bodas de Sangue devem ser publicados ainda este ano. Fiquem atentos!

5 05UTC março 05UTC 2010

eu ou o parceiro – parte dois

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 1:16

Aí ele me falou assim bora tomar uma cerveja cê tá doido é cara cerveja faz mal.  Ah então tá o que faz bem é matar todo mundo né nonato porra é cedo mermão. Deixei quieto porque o parceiro merecia ouvidos.

Mas quando o cara é pilantra ele se ferra por conta própria. O tal corno lá tá mais corno ainda hoje e eu tô com meu boi muito mais na sombra porque não adianta tirar onda quando você não sabe de verdade onde vale a pena meter a mão. Daí que outra vez eu tava fora do estado por umas três semanas e quando eu voltei foi uma festa, nego falando que num assalto no mercado perto lá de casa tinham matado um pm e os caras tavam quentes.

Era um tal de nego andando na rua parando moto e dando tapa na cara dos moleques quatro horas da tarde que nem vale a pena comentar. Caiu no meu colo o nome do vagabundo meio que de sorte, o dono do mercado não queria falar pra qualquer um dos homens lá e eu disse que tava devagar, querendo descanso, mas ele falou pô nonato esses caras fazem uma guerra pior que ser assaltado, tudo milico novo querendo quebrar vagabundinho a troco de qualquer merreca. Prefiro morrer numa grana contigo que sempre segura a onda por aqui, você ou o lactobacilo.

Aí eu olhei pra ele e falei, tu vai querer que seja eu ou o lactobacilo? Dá o nome e o vagabundo que resolveu fazer esse ganho aí na tua casa vai cair. Ele deu o nome e eu já sabia, era um mané que já tava visado na área do visconde, lá na ponte enviesada. Só que era um vagabundo liso e ainda não tinha caído e tava mais esperto que aquele ratinho ratatuile.

Rato que mexe em sopa quente termina cozido. Gratinei o cara e me aposentei. Nego nunca ficou sabendo se tinha sido eu ou parceiro.

Dia seguinte tava o parceiro no bar do Alex tomando cerveja com a pochete na mesa, tranquilão.

1 01UTC março 01UTC 2010

eu ou o parceiro – parte 1

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 0:58

A gente pegava os caras, jogava na parte de trás da kombi e quebrava na beira do rio. Sempre foi moleza. No dia seguinte aparecia boiando e todo mundo sabia que tinha sido eu ou o parceiro. Nunca deu problema. O que eles erravam era de pensar que tinha sido eu ou o parceiro. Era sempre nós dois. A gente era junto mesmo pra quebrar e pro que fosse também além de quebrar. No começo eu ainda esculachava, botava terror e mandava correr. Mas aí garoto no dia seguinte aparecia uns vagabundos na frente da minha casa e era uma merda. Na época minha filha era pequena e minha mulher não trabalhava. Na segunda vez que isso aconteceu, fiquei muito puto. A gente faz a bondade de deixar só como um aviso e a vagabundagem em vez de tomar jeito quer desafiar? Fiquei muito puto mesmo, cara. Chamei mais uns quatro parceiros de outras áreas e fizemos a limpa.

Não tinha esculacho. A gente pegava duas ou três kombis e ficava rodando. Deu madrugada, tá na rua de bobeira, a gente segurava. Aí no dia seguinte era sempre aquele papo: Foi o lactobacilo ou o nonato. Nonato sou eu, lactobacilo era o parceiro. Era eu ou ou parceiro. Nego achava que era uma sociedade, mas não era. Era parceria. Tudo junto, um dirigia e outro já ia esculachando quando queria relaxar, mas ninguém saia quebrando sozinho. Era eu e o parceiro.

Lactobacilo porque o cara é muito brancão, ele tem até hoje um jeito de yakult mesmo. O doido uma vez me apareceu com uma doze e disse que era pra gente usar, eu falei que não queria. Ele me chamou de viadinho, na zoação. O cara é mó branco, quase não pega mulher, e quer me chamar de viadinho porque minha arma cabe no porta luvas. Deixa ele. Sempre tem alguém pra dar uma zoada nessas saídas que a gente dá. Eu ou o parceiro, alguém sempre tá fazendo uma piada.

Tinha um maluco que tava me enchendo o saco numa época. Sabe quando o cara tá te devendo e finge que é você que depende dele pra você não ter manha de cobrar? Bicho liso a gente trata igual cobra, ou ele vai te tratar igual cobra na frente. Aí ele me deixava puto, que é o que eu tava falando, porque eu fazia uns serviços pra ele e o babaca ficava achando que era meu chefe. Bem na noite do dia que eu mandei ele à merda pela segunda vez, tava voltando pra casa e quem eu vejo, a mulher dele num ponto de ônibus bem nada a ver com a rota normal dela e um maluquinho do lado. A briga toda tinha sido por causa dela, aquela piranha. O otário lá se achando gostosão, mas era um corno que nem passava mais na porta. Aí ele me disse que a mulher dele tinha dito que eu tinha cantado ela.

Filhão, piranha até passa, e baranga até se encara. Mas piranha baranga não dá, e falei isso pro maluco que ficou todo ofendido. Mandei à merda, já te contei isso né, e fui seguir com a minha luta noutro ringue. Voltando pra casa, tranquilo, como te disse, tá lá a maluca com o rivaldo no ponto. Virei pro parceiro e falei “Bora tacar na mala?”. Ele falou “Tu tá maluco, rapá”. Eu falei “Sério”.

25 25UTC fevereiro 25UTC 2010

Blue mosca, vulnerasti cor meum – NOT

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 16:50

Não gosto de política e não meto minhas mãos no pote, mas se eu tivesse que pensar sobre uma orientação política eu provavelmente acabaria levando em conta o fato de que, quando direitistas criam um site para sacanear gente de esquerda, o resultado é sempre algo como o “Amanhã, ninguém sabe” ou o “Opinião Popular” – sites ótimos, muito engraçados.
Já este site aqui pode ter sido criado por

a) Esquerdistas querendo sacanear direitistas – e nesse caso, a sacanagem estaria muito malfeita;

b) Direitistas querendo sacanear esquerdistas – os mesmos esquerdistas da opção a, hipotéticamente tentando criar uma versão ideologicamente invertida de Iberê Jatobá, no ultrapassado formato de blog, 6 anos após o heyday da coisa.

Em resumo, o exemplo considerado parece demonstrar que sátira é um gênero de direita e isso por si só não me convence nem me impede de ser direitista. Mas levar em consideração tudo e reter o que é bom é prova de piedade cristã, tempera a salada e fortalece as vista.

E ainda, se o mundo realmente é um lugar bizarro, pode ser que o site seja de direitistas falando sério. Isso provavelmente não seria suficiente para me fazer sair por aí balançando minha bandeira do PSTU, mas contraburguês já pensaria em votar 16.

Conclusão: 66,67% de chance de ser uma boa sátira de direita contra 33,33% de PROBABILIDADE de ser uma maluquice de um Reinaldo Azevedo que comeu muita farinha MAIS o decreto papal contra o comunismo. Continuo verticalista.

Beijso

6 06UTC janeiro 06UTC 2010

Somente um olhar

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 13:13

Hoje vamos estudar o profundo paralelismo entre as obras de Dante Alighieri e Claudinho e Buchecha. Como todos sabemos, a obra máxima da dupla carioca é uma belíssima canção chamada “Nosso Sonho”:

Gatinha, quero te encontrar, vou falar, sou Claudinho
Menina Musa do Verão, você conquistou o meu coração, to vidrado, hoje eu sou, um Buchecha apaixonado.

Bem inseridos na tradição poética ocidental, a apresentação do bardo, que pede a atenção dos ouvintes (vou falaaaar….) e a invocação à musa,  Claudinho e Buchecha não buscam um vanguardismo de aparências. As rimas são diretas e abundantes, o ritmo bem modulado, tudo isso nos coloca a certeza: Estamos diante de verdadeiros poetas.

Naquele lugar, naquele local, era lindo o seu olhar
Eu te avistei, foi fenomenal, Houve uma chance de falar
Gostei de você, quero te alcançar, Tem um ímã que fez o meu hospedar
Nossas emoções, eram ilícitas, que apesar das vibrações
Proibia o amor, em nossos corações.

Rimas e assonâncias internas (local / fenomenal, avistei/gostei/você), um enjambement sofisticado (tem um imã que fez o meu hospedar nossas emoções), cadências muito bem construídas. Tecnicamente, temos uma estrofe admirável.

No entanto, críticos menos preparados e preconceituosos não conseguem penetrar fundo na poética de C&B. Apressados, correm a declarar que construções como …Tem um ímã que fez o meu hospedar Nossas emoções, eram ilícitas, que apesar das vibrações… não fazem sentido. São as mesmas pessoas que não sabem que “adjudicar” significa “autorizar, permitir” e que portanto, não o compreendendo, julgam esta uma obra inferior. Mas chegaremos logo a esta parte.

A beleza da construção mencionada é fulgurante, quando encontrada. Os poetas, sem intenções vanguardistas, se saíram com uma solução que exige, do leitor, a atitude de amor e atenção para cm o poema, sem a qual é escusado que a leia. Um poema sobre o amor que se eleva das coisas terrenas não pode dispensar o mesmo amor – a mesma impulsão para o alto – na hora de ser lido. Quem o lê com os olhos baços daquele preconceito que nasce dos vários ódios que nos enchem as horas jamais encontrará a vivíssima poesia que mora naqueles versos.

Mas divago! Diga, então, o leitor por si mesmo:

Tem um ímã que fez o meu hospedar Nossas emoções. Nossas emoções eram ilícitas, (o) que apesar das vibrações….

O que temos aí? Um ímã, atrator, que faz outro hospedar emoções. Mas não quaisquer emoções, se não as do poeta e de sua amada. O ímã possui dois polos. Os polos opostos se atraem; já os polos equivalentes se repelem. ´

Lembremos, aqui, que Dante se referia a Beatrice como sua “beatificadora”, isto é, aquela de quem provêm sua beatitude. Se a beatitude de Dante vinha de Beatrice, é porque ele não a possuia em si; um fluxo muito semelhante ao eletromagnético, o que justifica a decisão do nosso poeta de utilizar um imã como objeto.

A física moderna já investigou as relações entre o eletromagnetismo, a energia atômica, a força gravitacional, a mecânica dos corpos celestes e outras beatitudes encontradas em nosso universo; mas continuam as buscas por teorias, resultados e indicadores que conduzam a uma ciência de tudo, uma teoria universal que concilie todos os conhecimentos num universo teórico que funcione – tanto quanto o universo físico, de fato, funciona. Dante cristalizou, num verso famoso, a base filosófica desta ciência de tudo: A Divina Comédia termina com uma menção ao “Amor que move o sol e as outras estrelas“. Sim, que move o sol, as estrelas e faz com que os polos opostos dos ímãs se atraiam mutuamente.

Digno de nota é também o recurso estilístico que une as duas frases. As emoções, hospedadas pelo imã na primeira oração, tornam-se sujeito da próxima. No entanto, não se canta duas vezes nossas emoções, o que simboliza a união entre poeta e amada. Através de suas emoções, o poeta e sua amada se unem; através de sua expressão em palavras, o poema une a atração e sua ilicitude. E por falar em ilicitude…

Ziguezaguiei no vira, virou, você quis me dar as mãos, não alcançou
Bem que eu tentei, algo atrapalhou a distância não deixou
Foi com muita fé, nessa ilustração,que eu não dei bola para a ilusão.
Homem e mulher, vira em inversão bate forte o coração

Aqui, temos uma referência clara às dificuldades passadas por Dante durante o período em que, graças ao seu malfadado envolvimento com a politica florentina, passou por dificuldades e perseguições e finalmente o exílio – ziguezagueou no viravirou, virou em inversão. Na vida pessoal, infelizmente, o poeta não foi capaz de voar quando lhe tiraram o chão.

Tumultuado o palco quase caiu
Eu desditoso, e você se distraiu
Quando estendi as mãos, pra poder te segurar
Já arranhado e toda hora vinha uma
A impressão que o palco era de espuma
Você tentou chegar, não deu pra me tocar

Nesta estrofe, Claudinho e Buchecha emulam, magistralmente, as emoções do auge da luta política de Dante, a instabilidade social de seu lugar e tempo (palco de espuma) culminando com seu afastamento de sua cidade e de Beatrice, já morta quando de seu exílio, mas presente simbolicamente em Florença.

Nosso sonho não vai terminar
Desse jeito que você faz
Se o destino adjudicar esse amor poderá ser capaz, gatinha
Nosso sonho não vai terminar
Desse jeito que você faz
E depois que o baile acabar, vamos nos encontrar logo mais

O sonho que não termina: Como lemos na Vita Nuova, Dante soube, desde quem em Beatrice os olhos pousou, que não deixaria de amá-la, durante toda a eternidade. E no entanto, não o vemos tentar nenhum passo prático que o pusesse mais perto de sua amada. Ele permite, sem mais, que “o destino adjudique“.  E o que é toda a Comédia senão um baile que, acabado, permite a Dante e Beatrice se encontrarem “logo mais“?

Na Praça da Play-Boy, ou em Niterói.
Na fazenda Chumbada ou no Coez.
Quitungo, Guaporé nos locais do Jacaré.
Taquara, Furna e Faz-quem-quer.
Barata, Cidade de Deus, Borel e a Gambá.
Marechal, Urucânia, Irajá.
Cosmorana, Guadalupe, Sangue-areia e Pombal
Vigário Geral, Rocinha e Vidigal
Coronel, mutuapira, Itaguaí e Sacy.
Andaraí, Iriri, Salgueiro, Catirí
Engenho novo, Gramacho, Méier, Inhaúma, Arará.
Vila Aliança, Mineira, Mangueira e a Vintém.
Na Posse e Madureira, Nilópolis, Xerém.
Ou em qualquer lugar, eu vou te admirar.

Aqui temos uma analogia com os sete círculos do inferno, que um crítico especializado poderia deslindar, com um generoso conhecimento de sociogeografia carioca. No entanto, a intuição nos mostra que assim é, mesmo que não detalhemos o porquê. Aos ávidos por provas, basta-me, no momento, mencionar duas coisas.

Uma é a melodia do trecho. Ouça atentamente e perceba como a canção vai ficando mais alegre; precisamente, quando Buchecha canta “Coronel, mutuapira, Itaguaí, Sacy”. Isto serve para simbolizar a proximidade do paraíso. Repare também que a primeira palavra aí cantada é Coronel: Símbolo da hierarquia militar, e portanto, da ordem, fortemente constrastando com os vários nomes de origem indígena que representam a anarquia em que viviam os povos nativos do Brasil antes da colonização portuguesa, e por extensão, do inferno, reino da desordem.

A segunda é mais simples. Repare que a última localidade mencionada é Xerém. Aos que não conhecem, Xerém é um distrito de Duque de Caxias já praticamente chegando em Petrópolis, que é uma cidade serrana. Lembre, agora, que o Purgatório ficava numa montanha! É uma perfeita menção à obra de Dante que praticamente não se percebe entre as rimas da estrofe.

Os teus cabelos cobriam os lábios teus
Não permitindo encontrar os meus
E você é baixinha, gatinha eu vou parar
Mas tudo isso porque eu me sinto coroão
Tu tens apenas metade da minha ilusão
Seus doze aninhos permitem somente um olhar

Descrevendo um encontro com sua Beatrice funkeira, o poeta cria um momento de grande beleza, digno do cânon ocidental. Primeiro: A estrofe tanto se aplica ao encontro de Dante com Beatrice no céu quanto aos dois que tiveram na terra, durante a vida de Beatrice. Não há nada que determine o local onde os cabelos da amada encobrem seus lábios, os impedindo de encontrar os do poeta.

Veja-se, também, que o poeta menciona que a amada “tem apenas metade da minha ilusão”, isto é, metade de seu tempo  nesta terra. Agora, abra o leitor sua edição da “Vita Nuova” e veja se não é isso que Dante diz. Através de complexos indicadores astrológicos, Dante nos diz ter ele dezoito e Beatrice nove anos quando pela primeira vez se avistaram.

O último verso foi alvo de maiores críticas. No entanto, é uma chave perfeita para o poema. Em primeiro lugar, o poeta ter errado ao trocar “nove” por “doze aninhos” é perdoável, em tempos como os nossos, nos quais não mais se ensinam o latim e a astrologia clássica nas escolas. Mas sempre resta a possibilidade de que Beatrice tenha morrido com doze anos! Negar isso é negar a possibilidade de uma liberdade poética. Recusar o verso por causa da dúvida é recusar a poesia do que não se pode saber, se não por um vislumbre.

E é, também ao afirmar que a tenra idade de sua amada permite “somente um olhar“, que Claudinho & Buchecha afirmam a superioridade de sua poesia. Como sabemos, o próprio Dante ensina, no capítulo X de “Il Convito”, que entre as três coisas a que o amor move o amante, está a defesa da coisa amada. E amar uma jovem, ainda não preparada para o amor conjugal, significa defendê-la; defendê-la de tudo, inclusive de que o poeta, esquecido dao suprema dignidade do amor, queira extrair de sua amada mais do que somente um olhar.

5 05UTC janeiro 05UTC 2010

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 3:57

Você pode me achar um perfeito, completo, fornidíssimo idiota. Isso não lhe decresce nem um centímetro. Você pode dizer que meu Deus humilhado, crucificado numa cidade asiática, de ossos contados, não é muito diferente de um monstro voador de espaguete. Você pode armar um circo ou, no picadeiro, dizer que eu e alguns de meus amigos somos a visão do inferno.

Você pode fazer tudo isso e mais várias coisas. Você só não conseguirá me impedir de pensar: “Tomara que o céu seja muito grande”. Pensar, não: Rezar, que  é atividade permitida pela Santa Madre Igreja e acessível a um sujeito que se cerca de direitistas. Tomara que seja grande, e tomara que a camaradagem do porteiro seja maior que sua justiça.

Porque eu sei que não mereço ir pra lá. E você pode fazer tudo aquilo que descrevi no primeiro parágrafo ou pode agir totalmente ao contrário. Mas de modo nenhum você vai conseguir merecer estar no céu; porque simplesmente, ir pro céu significa receber de Deus uma graça final, suprema e inesgotável em palavas: A vida eterna e plena, que somos incapazes de merecer por natureza, mas à qual somos chamados desde o nascimento de nossas almas.

Há pouco, eu percebi que havia estabelecido uma relação curiosa com Deus. Constantemente, eu me armava em credor da Divindade e estabelecia metas e prazos para meu Criador. E já quase me considerava a salvo do inferno, independente de o quanto ou quão gravemente pecasse.

É óbvio que isso já era um pecado dos mais piores. Mas o que me assustou foi a possibilidade de que, na verdade, não tenha sido algo que passou, e eu percebi – mas algo que eu notei ter existido no passado, mas que continua existindo no presente e eu não vejo.

O Pedro Sette Câmara escreveu aqui sobre a sensibilidade atual aos presentes desagradáveis, ou no mínimo não desejados, e conta sobre um presente que, desembrulhado apenas, pareceu inadequado a quem o ganhou; mas que acabou tendo um impacto enorme sobre a sua vida.

E hoje eu estava assistindo um documentário sobre uma doença de pele que causa um enorme sofrimento e leva suas vítimas à morte prematura. Minha esposa se encarregou do comentário inevitável que só fazemos muito poucas vezes: Temos que dar graças a Deus pela saúde do nosso filho e nossa…

E eu concordei, claro. Ela estava jogando e eu não queria desconcentrá-la.

Mas o que justificaria àqueles doentes não dar graças a Deus? Não estavam vivos? Não eram capazes de lutar contra um sofrimento real e seguir suas vidas, sob a ameaça real de uma morte provavelmente próxima? E isso não fazia deles pessoas superiores a quase todas as outras em algum aspecto – pessoas com uma história que ninguém mais tem?

Essa sua maneira de chamar ao meu Deus de “Monstro de espaguete” – não é isso, entre outras coisas, que faz de você uma pessoa diferente de todas as outras? Não é assim que, um dia, o monstro de espaguete vai reconhecer sua alma entre todas as outras?

E se o monstro de espaguete não existir – ainda assim, eu sei que não mereço o que ele não me deu, mas que de alguma forma eu vim a ter. Ainda assim, inexplicavelmente, tudo está bom demais – tudo, como direi? muito imerecido. E tudo muito imerecidamente melhorando.

And even though it all goes wrong, I´ll stand before the Lord of Song with nothing on my tongue but Hallelujah.

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