800x600, pelo menos. Maximize a janela, por favor. E se você não está vendo esse blog direito porque usa algo além de IE, Firefox ou Opera, convenhamos, a culpa é minha?

março 29, 2006

Soneto

O que quero no mundo é véu - é trama
urdida de paciência e mistério
(nada falta no mundo, neste sério
depósito de sobras)... ri-se a fama,

exposta em honor e vitupério:
Ri da torta na cara de quem ama,
ri da carne, do sangue, ri da lama,
e ri de rir, num ronco frouxo e fero.

Haveria razões de riso, caso
o riso não fosse filho de um siso
pouco encontrado neste aro aceso

de um fogo frio... mais um brilho teso
que fogo, uma vergonha sem juízo,
onde uma alma se afoga no raso!

Posted by Igor at 12:51 PM | Comments (3)

setembro 12, 2005

A mão

A mão é articulada, e assim tateia.
Parece ter cinco almas, uma em cada dedo;
Cada alma (uma à outra) causa amor e medo,
E de amor e medo a mão se encontra cheia.

A mão tateia porque não tem olho.
Os olhos desconhecem deste braço a ponta,
E se a mão se lhes mostra, crêem que é afronta;
E o que buscam está ao lado, a grato escolho.

A semelhança sólida que a mão procura
É também semelhante à luz que os olhos vêem,
Mas ambos vivem sempre nessa lide dura.

Buscando longe um o que o outro tem,
Da mão a solidez morna, do olho a luz pura,
Tão perto, não se encontram; não o farão além.

Posted by Igor at 03:09 PM | Comments (2)

agosto 10, 2005

Vontade de assobiar

Estava preparando esse texto - com o shift apertado para digitar a primeira letra da frase, maiúscula - e, enquanto pensava sobre o que escrever, o windows me disse que manter a tecla apertada por cinco segundos habilita uma função qualquer que não me interessou, e eu mandei desabilitar.

Nada errado nisso; a máquina tinha a instrução de ligar essa opção se algum usuário, consciente ou não do que faz, resolvesse atender à condição que lhe ensinaram. Se o windows não ativasse o sticky keys, isso seria um erro; eu não perceberia, mas ainda assim.

Pensei nas estórias em que sinais são combinados entre pessoas - e um incauto, sem querer, se encaixa perfeitamente na descrição, na mesma hora e lugar - e com a ausência do contato realmente esperado. Em especial, uma história antiga do mickey, publicada num dos primeiros números do Pato Donald - A minnie deseja um chapéu vermelho e, usando-o, é confundida com uma outra rata que levaria um rubi para uma quadrilha e deveria ser interceptada por um homem com uma caixa de bombons, para que este a levasse ao esconderijo. A rata aquela encontra o mickey, que leva uma caixa de bombons para a minnie. Assim os dois, por causa de um chapéu, resolvem um caso de roubo de jóias.

Por causa de um chapéu, na vida real muito provavelmente seriam apenas mortos. E por coisas assim - por um chapéu, por um chocolate, por ler um blog - por gostos e desejos prosaicos, que não deveriam dizer nada, muitas vezes há quem deseje ver em nós o que não há. Assim como usar um chapéu transforma uma rata em uma ladra de jóias, talvez ler este texto esteja transformando você num membro de uma sociedade internacional de espionagem, por exemplo.

Em "Moscou contra 007", as senhas e contra-senhas para identificação de espiões do serviço secreto britânico são algo como "O senhor tem fósforos?" "Uso isqueiro" "Tanto melhor" "Enquanto funcionam". Neste caso, basta alguém pedir fósforos e responder que isqueiros são melhores para ser tomado por um espião. No caso de um fumante, as probabilidades de algo do tipo acontecer são bem altas.

Chesterton escreveu que somente o homem louco acha que tudo tem um motivo; isso porque acha que todos estão em perpétua conspiração contra ele, e por isso se aquele senhor assobia Penny Lane, isso é um sinal combinado entre eles para atacá-lo. Não lhe ocorre que ele simplesmente tenha vontade de assobiar; todo doido se acha o centro do mundo, e todas as ações humanas devem levá-lo em conta de alguma maneira.

Daí é muito simples chegar a uma conclusão segregacionista - quem faz isso é paranóico, ou bandido, ou tem algo a esconder - não nós, pessoas normais, 90% da população. Se é assim, então 90% das gentes do mundo são loucos, bandidos ou espiões - porque é justamente essa maioria, da qual conheço uma pequena amostra, mas provavelmente representativa da totalidade, que vê nos atos descomprometidos, desmotivados, que mesmo esses 90% praticam diariamente - tudo, ameaças e sinais combinados, relatórios e pedidos de reforços - tudo, menos a simples e humana vontade de usar um chapéu ou assobiar.

Posted by Igor at 01:03 PM | Comments (4)

agosto 04, 2005

Media Watch

Link no Uol: Trabalhar com aborto é ato heróico, diz cineasta

Declaração do cineasta Todd Solondz na Entrevista: "Os Estados Unidos são o único país do mundo onde a pessoa que trabalha com abortos é vista como um herói, da mesma maneira que os policiais ou os bombeiros."

Boa, UOL. É assim mesmo.

Posted by Igor at 01:43 PM | Comments (1)

julho 29, 2005

Achtung, Baby

Sinceramente, não sei o que as pessoas acham tão bom no Achtung, Baby. Para mim, O álbum do U2 é October - Batizado com o nome do lindo mês em que eu nasci. Ou All that you can't leave behind.

Crianças, crianças: Não escutem Bush. Não o George, com esse eu não tenho nada a ver - esse Bush, que as rádios iraquianas chamam B-U-S-H. Ouçam Soundgarden que é bem mió, ou mesmo A-l-i-c-e-I-n-C-h-a-i-n-s.

Posted by Igor at 07:02 PM | Comments (2)

junho 28, 2005

Uma campanha relevante

Sempre ouvi críticas à publicidade de cigarros, dizendo que as peças retratavam um sujeito que tinha tudo que se podia querer e associando seu sucesso ao hábito de fumar. Se faziam isso, não vejo nada de errado. O consumo de cigarros sempre foi vedado a pessoas com menos de dezoito anos (não que isso seja obedecido, mas a regra é essa), e quem tem mais de dezoito anos devia saber que acender um free não vai te transportar para dentro de um volvo com duas suecas alisando sua perna.

Perigo muito maior existe nas propagandas de achocolatado. A última de Nescau, então, é uma grave ameaça: Em primeiro lugar porque o produto tem por público-alvo justamente os menores de dezoito anos, de quem se espera menor capacidade de discernimento; em segundo porque associa ao consumo do produto êxitos ainda mais absurdos. Listo: O rapaz, aparentando uns quinze anos, toca bateria com destreza, e depois executa uma vertiginosa série de saltos mortais até chegar aos cientistas - seus subalternos - para provar o novo nescau.

Daí teremos adolescentes acreditando que o consumo de nescau os fará capazes de desbancar Taylor Hawkins e Daiane dos Santos em suas respectivas áreas, além de chefiar uma equipe de cientistas, e tudo isso aos quinze anos; quando todos sabemos, nós adultos realistas e espertões, que isso é absolutamente impossível, principalmente no caso daqueles que consomem muitos produtos como Nescau, Toddy (principalmente essa horrorosa versão com coco), Xocopinho e assimilhados; destes sabemos que aos quinze anos estarão, muito provavelmente, gordos e totalmente incapazes até de tocar flauta e passar na roleta do ônibus sem ser de lado.

Conclamo-vos portanto, homens e mulheres de bem deste país, a juntar-se numa campanha contra a publicidade de achocolatados, perigo que paira sobre as cabeças do futuro de nosso brasil, enfeitiçando crianças e adolescentes a acreditarem que suas vidas serão muito mais interessantes após o consumos destes produtos. Urge fazer algo contra os interesses que movem o comércio de produtos lácteos, interesses, sabemos nós, muito mais interessados no bem estar dos jovens de Vevey, na Suíça, que no dos jovens brasileiros.

Em último lugar, expressamos nossa confiança na classe política brasileira; cremos que nossos nobres deputados e senadores volverão seus olhos a essa ameaça e, em nome da saúde do brasil futuro, a extirparão de sobre nós, com a força da lei.

Posted by Igor at 01:20 PM | Comments (1)

junho 10, 2005

Manual de caça ao tesouro, introdução

Passando em frente a uma locadora, vi entre os cartazes dos filmes recenter algo sobre "Caça ao Tesouro" e me surpreendi que ainda se fizessem filmes sobre o assunto. Surpresa burra, durou poucos segundos. De fato, poucos temas restam além desse; e mais, qualquer estória do gênero é mais próxima da realidade que as que se pretendem realistas.

Toda vida é uma caça ao tesouro - incluindo algumas caçadas a tesourinhos -, todos estamos sempre em busca de algo, e geralmente algo bem valioso. Todos corremos inúmeros perigos no caminho, assim como todos sabemos que só os coadjuvantes morrem no meio do caminho.

E todos nós podemos passar por um momento em que, com a bolsa carregada de jóias às costas, tentamos atravessar uma série de obstáculos sob as flechas dos selvagens. Se chegar o seu momento - quando chegar esse momento - não esqueça: O tesouro pode parecer um estorvo para a fuga, mas é por causa dele que você está ali. Não se livre dele. É sem o tesouro que a flechada mais machuca. Se tiver que optar entre o peso do ouro e o peso dos cantis de água, jogue o líquido fora. É com a água e sem o ouro que a sede mata mais rápido.

Se não agir assim, o sofrimento será maior. Dou poucos conselhos, mas geralmente são bons.

Posted by Igor at 07:25 PM | Comments (2)

abril 25, 2005

Proibições

Se todas as pessoas pudessem voar, quase ninguém – ou ninguém – continuaria andando a pé. O ato de caminhar seria desprezado; voar, afinal, é tão melhor e mais rápido. Mas caminhar não é ruim; imagine não ser capaz de caminhar. É para isso que existem as impossibilidades: Para que amemos as possibilidades. Não somos capazes de voar, não porque Deus seja egoísta e diga “Eu proíbo você, ser humano, de criar asas e sair voando”, mas porque Deus diz “Eu o faço com pernas e sem asas, ser humano, para que você experimente andar, e ache bom; e para que, gostando de andar com os pés no chão, não deixe de apreciar a idéia de voar pelo céu”.

Tudo que não temos serve para nos estimular a amar o que temos. O fato de não ser possível estar casado ao mesmo tempo com todas as mulheres do mundo serve para amarmos a mulher com quem casamos. Por não ser possível estar sob dois tetos ao mesmo tempo, ama-se o teto sob o qual se está. A impossibilidade de comer com duas bocas simultaneamente é um motivo para amar a boca que se tem.

Mesmo assim, as proibições e limitações existem muito mais vivamente na mente dos não-cristãos e não-religiosos. Um Cristão, de fato, não está impedido de nada – a divisão do que é humanamente possível ou impossível não faz sentido quando se acredita que Deus pode fazer tudo. Um cristão, em resumo, é aquele que entende os motivos pelo qual as coisas acontecem de certa maneira, por aceitar que as coisas são assim; poderiam ser diferentes, mas não são.

É por isso que qualquer intenção de mudar o mundo pode até estar muito correta, mas não pode ser assumida por um Cristão. Se alguém acredita que Deus fez o mundo, não tem o menor direito (para não falar em possibilidade) de tentar consertar a obra. Quem quer melhorar o mundo, fique à vontade, mas não se diga cristão.

Não quero dizer que o mundo está bom como está. Quero dizer, em coro com Leibniz, que não poderia estar melhor, exceto se Deus, que o construiu assim, o reconstruísse. E essa reforma do mundo, feita por Deus, é uma das esperanças cristãs.

As pedras caem no chão quando são arremessadas para o alto: Isso acontece porque Deus quis que assim fosse. Quando Deus quiser que elas não caiam, mas explodam como fogos de artifício, é assim que vai acontecer. Se podemos imaginar Deus sendo tolerante até com pedras, porque será impossível imaginar que Deus possa ser misericodioso com sua obra?

Posted by Igor at 07:33 PM | Comments (6)

abril 15, 2005

Milagres e erros

Não vejo muita diferença entre um milagre e um erro. É claro, um milagre é um tipo bom de erro; como quando seu salário vem com um zero a mais. Os mais honestos, já os ouço, dirão que isso não é justo. Concordo; cada um recebe o salário que merece, e se merecesse dez vezes mais, receberia dez vezes mais. Igualmente, um milagre não é dado por que o favorecido mereça, mas somente porque Deus é bom, e comete um bom erro. Além disso, seu cofre nunca esvazia.
Um milagre é um erro de continuidade. Segundos atrás, estes tonéis estavam cheios de água; agora estão cheios de vinho. Segundos atrás, tudo que havia para se comer eram alguns poucos pães e peixes; agora temos milhares de pessoas comendo, e a comida não acaba. Segundos atrás, este homem estava morto; agora, este Deus está vivo.
Para crer no cristianismo, é necessário crer que as coisas podem acontecer de maneira errada. Não é porque a bananeira sempre deu bananas que ela sempre dará bananas; se é possível imaginar a bananeira carregada de distintivos policiais, é possível que isso venha a acontecer. Aqueles mais positivistas logo viriam dizer, usando sua linguagem científica, que a bananeira cometera um erro. Um narrador em um contode fadas diria que a bananeira estava encantada.
E um cristão diria que foi um milagre. São apenas nomes diferentes para o mesmo fato; mas a escolha entre estes nomes revela o quanto você conhece, e o quanto você ama o autor e o motivo do erro, da mágica ou do milagre.

Posted by Igor at 07:01 AM | Comments (3)