800x600, pelo menos. Maximize a janela, por favor. E se você não está vendo esse blog direito porque usa algo além de IE, Firefox ou Opera, convenhamos, a culpa é minha?

janeiro 16, 2006

Loop!

A vida doméstica é uma repetição - mês igual a mês, dia igual a dia, minutos, segundos iguais. Os mesmos prazeres. As mesmas dores. Os mesmos exageros para os de fora "prazeres, dores, blá blá blá".

A vida doméstica o que é, então? É vida, e é doméstica. Não muito mais que isso. Quem quiser, basta estar vivo e se domesticar. Eu parei de morder faz tempo.

************

O sol se levanta todo dia: Na verdade, é a terra que gira seu corpo inteiro, oferecendo sempre metade de si ao astro quente. A outra metade continua velada.

O sol se levanta todo dia: Não é o sol que se move, mas do ponto de vista do observador é como se ele corresse em volta da Terra, querendo provocá-la. A Terra se espreguiça no calorzinho, todo dia.

************

Toda semana, ansiamos pelo corpo de Deus. Toda semana nos levantamos e vamos à casa dEle; recordar tranquilamente Sua paixão, como já disse alguém antes de mim.

Toda a semana, anseio pelo corpo de Deus. Toda semana me levanto e desejo ir à casa dEle; recordo sem tranquilidade sua paixão, e peço que abrevie os dias em que sua casa está assaltada...

Toda semana, a paixão se repete.

************

O sol subiu - "De novo!", Deus pediu.

************

Todo dia eu volto para casa. Queira Deus que todo dia eu encontre tudo como era ontem.

Posted by Igor at 09:00 AM | Comments (3)

dezembro 05, 2005

Soneto sobre amor e preguiça

Amar às vezes dá uma preguiça!
De tanto amor meu corpo está cansado
e minha mente morta. Tenho fixa
a impressão que o amor é uma pá do

Mais puro ferro, o mais pesado aço,
que não refletem bem do amor a carga:
O amor que oferto pesa como um traço;
já o que peço, a força humana embarga.

Amar é cansativo. Eu sei, pois amo
e canso-me do amor, que é uma batalha,
que perco e venço uma vez por minuto.

Mas se não vou à ela, logo escuto
Do Amor a lição que aos covardes calha:
Se tens preguiça, mais e mais te chamo.

Posted by Igor at 07:17 PM | Comments (2)

outubro 25, 2005

Não gosto de Cinema

[Este texto foi publicado no meu blog antigo um dia depois da cerimônia de entrega do Oscar deste ano, e agora republico uma versão adaptada para a aposta#3 - veja mais aqui]

Não gosto de cinema, porque não gosto de quem gosta de cinema.

Gostar de cinema faz você ficar muito chatinho, como qualquer dileção artística. Gostar simplesmente não basta; é preciso categorizar seu gosto - primeiro gosta-se da forma de arte, depois elege-se uma escola ou estilo, daí um autor em especial. Tudo isso é causado pela vontade de parecer inteligente, e só precisa de um certo investimento de tempo para conhecer o negócio, mas o sujeito que chega nesse ponto dá-se arezinhos eruditos, usa óculos estranhos, e então já tudo está perdido.

Não gosto de cinema, por isso não entendo do assunto. Gosto de alguns filmes, mas me sinto mal ao perceber que a coisa se resume a isso - gosto, não gosto ou nem me interesso, caso mais comum e aplicável a todos os filmes concorrendo ao Oscar de qualquer coisa este ano. Já os comentários de um convidado da Globo (a memória, renitente, diz-me que era o José Wilker, mas a vergonha de sabê-lo impede-me confessá-lo) sobre os filmes citados me confirmavam a impressão de que Cinema é a maior chateação. Entender de cinema, então, é a maior chatice.

Quem gosta de cinema discute (palavra-lei) sobre enquadramento, fotografia, decupagem, etc. e eu me sinto tão mais burro quanto infinitamente mais clever. Elogia-se a maturidade de um filme, e eu penso Papai do céu, onde estás que não os fulminas com fogo e enxofre dos céus etc? Maturidade, Deus me livre - O que eles chamam de maturidade é pose de enfado, o estado de espírito adolescente por definição.

Não gosto de cinema porque não gosto de maturidade. Em nome dessa admirável virtude, o Wilker ficou felicíssimo quando uma musiquetinha espanholeta horrorosa, chatíssima, interpretada (outra palavra-lei) por um Antonio Banderas über-cafonão e um Carlos Santana que é simplesmente O Santana, o rei da vulgaridade instrumental, ganhou a estátua do careca. Ouvindo a peça, fiquei com a sensação que iam tocar Oye Como Va, quase uma expectativa - o Santana sempre quer tocar Oye Como Va - mas ficaram mesmo na babaquice de motocicreta, e com isso ganharam da música até que legalzinha do Counting Crows*, a nova banda do Chico César. E o mais ridículo são os fãs-desde-sempre, que nunca são fãs há mais de dois meses. Fenômeno verificado em Senhor dos Anéis, repetiu-se com O Aviador; vão deitar que todo mundo sempre admirou muito o Hughes sei-lá-quem. Hoje, sete meses idos pelo ralo, ninguém lembra, ninguém viu. Toda admiração eterna é tão rápida no parto quanto na morte.

Veremos agora se serei acusado de inveja ou frustração, outra palavra-lei dos babacas que não podem ver ninguém falando mal de algo que envolva dinheiro ou fama em escala maior que a própria vida de quem fala. Isso provará definitivamente minha superioridade intelectual; tomara até que alguém diga que tem pena de mim. Rá!

................

* Accidentally in Love, música-tema de Shrek 2.

Posted by Igor at 12:38 PM | Comments (2)

setembro 19, 2005

Escravos da Técnica, Escravos de Deus

A moral do Cristianismo foi qualificada - muito para descanso de seus inimigos, que de modo geral estão contentes de decorar cinco ou dez epítetos desonrosos à nossa religião - de moral de escravos. Sejamos escravos, então; é como escravo que vou ver minha moral, é sob o fardo da fé e o chicote da penitência que vou analisar minha religião.

Para se analisar - obedientemente, como servo - a moral cristã, a primeira autoridade, capataz máximo, é a Bíblia Sagrada. Busque-se na Bíblia o que pode ser compreendido como lei moral, de comportamento - moldada num faça isso, não faça aquilo. Com a submissão de um cativo, comecemos pelo princípio. O que devemos fazer primeiro? Jesus responde: Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça, e tudo mais lhe será acrescido.

Então, o princípio de nossa moral é a busca do Reino de Deus. É uma tarefa, como de escravo. Devemos buscar este reino; como o encontraremos?

Jesus nos indica: o pobre de espírito possui o Reino dos Céus, o que chora será confortado, os mansos herdarão a terra, os que tem sede e fome de justiça serão saciados, os puros de coração verão a Deus, os pacíficos serão chamados de filhos de Deus; e aquele que é perseguido por causa da justiça possui o Reino dos Céus.

O Reino é a primeira e última recompensa prometida neste primeiro, e mais famoso, trecho do Sermão da Montanha; é um princípio, a que devemos buscar antes de tudo, e é um fim, o que teremos após tudo. Portanto, na moral cristã o fim é idêntico ao princípio; é isso que chamamos de integridade da fé. Mede-se a moral cristã pelo desejo que um cristão possui de possuir agora, antes de tudo, e no fim, depois de tudo, o reino de Deus. Os meios sugeridos são aqueles do último parágrafo, e mais: Se tua mão ou teu olhos te causam escândalo, arranque-os de teu corpo (pois é melhor herdar o reino sem o olho ou a mão que ir inteiro pro inferno); não jure, mas seja teu sim, sim e teu não, não; se te baterem numa face, oferece a outra; se te levarem a veste, oferece o manto; se te forçarem a andar uma milha, anda duas; ame seu inimigo, pois qualquer pecador é capaz de amar seus amigos. Sejam perfeitos, pois vosso Pai que está no céu é perfeito.

*

A fé é a submissão da inteligência à verdade - e sobre este tópico, talvez fosse mais polido esquecer que Jesus disse que "Se permanecerdes em minhas palavras, sereis de fato meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"; mas devemos sacrificar nossa polidez, como sacrificaríamos a mão ou o olho, quando nos ocorre tratar de assuntos de vida e de morte. A verdade nos libertará; e a ela nos submetemos, a ela tomamos como cruz, esta verdade massacrante - de que o verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós. Essa verdade é para nós como uma caixa cheia de ouro - pesada e valiosa, e tão mais pesada quanto mais valiosa. Nossa libertadora é que nos pesa; porque é essa liberdade que não suportamos. Que tipo de liberdade escraviza? Qual corrente é como asa em nossos pés? Que fardo nos torna mais leves? Não sabemos bem; agora vemos como em espelho e de maneira confusa, mas depois contemplaremos, face a face, este mistério da fé.

*

Este escravo que se julga livre, este liberto que se submete - eis o cristão, magra ração para leões e patético espetáculo para o mundo. Vejamos agora o homem livre.

*

Quem não é cristão, é livre - e livre para quê? Para fazer o que quer. Não tem nada que o prenda, nada que o limite; pode expandir-se, se quiser, até ocupar um volume equivalente à lua, ou encolher-se até ser confundido com formigas e cupins. E, de qualquer forma, continuará fazendo o que faz costumeiramente, a saber, ocupando espaço ou consumindo matéria; permanecerá humano; um estômago, dois pulmões, um coração, um intestino. Não muito diferente de um cadáver; a diferença entre o vivo e o morto será assombrosamente indescritível, para prejuízo dos vivos que seguem se preocupando com isso; haverá, para alívio, aqueles que não dão a mínima. Estes são livres para caçar borboletas, para pular corda, para tentar lamber os próprios cotovelos - e depois, descansar em sua placidez de homem livre e tranqüilo.

Mas há fatos que o homem livre não pode mudar - mesmo que esteja livre de trabalhar, livre de compromissos, completamente livre das outras pessoas - não estará livre da gravidade, ou da pressão atmosférica. Se duas placas tectônicas decidirem dançar um tango sob sua casa, nem mesmo quinhentas doses de toda sua liberdade serão capazes de salvá-lo, na melhor das hipóteses, da mudança. É livre, mas em algum momento perceberá que não é completamente auto-determinado - que não pode escolher tudo que lhe acontece. O senso do inevitável, no homem livre, é a primeira mancha da verdade; porque a verdade é pesada e veloz, não pára e deixa as opiniões e preferências atravessarem a rua; antes atropela-as, e quanto mais as opiniões dançam e observam a paisagem, ou as preferências param para estudar o fascinante traçado da faixa de pedestres, maior risco correm.

Nasce desse medo, desse pressentimento, a moral do homem livre, insubmisso, completo - que no fundo de si não quer dever nada a ninguém; sustenta seus hábitos, estabiliza seu dia-a-dia, endireita seus passos sobre o mundo com a mesma atenção que dispensa para endireitar as rodas de seu carro ou as paredes de sua casa. Apega-se ao mundo físico, e moralizando-o na reta verticalidade dos arranha-céus e na reta horizontalidade das estradas, moraliza-se na reta verticalidade do que lhe cabe na cabeça e na reta horizontalidade do que lhe encaixa entre os braços; mas sabe que age assim por não poder viver na região de seu cérebro onde tudo pode ser recurvado e espiralado, onde projetaria prédios flutuantes e sistemas solares em copos d'água; não sendo livre para viver segundo os próprios desejos, considera-se livre para viver segundo as próprias limitações. É senhor de si, e procura não dar muita atenção para o fato correspondente de ser escravo de si.

Não sendo escravo de um Deus, é escravo da gravidade ou do valor de Pi; não se abatendo sob o amor, cai sob a realidade que interpreta e se força a aceitar; não carregando o fardo da verdade, carrega a espada imaginária que lhe recorda a infância, e faz do mundo um palco de batalhas onde se decide qual é a marca de grampeadores mais vendida. Não acredita na alma, que não vê, mas acredita no átomo, que também não vê.

Cansado da luta, dorme pesadamente em sua cama, à noite; não deve nada a ninguém, construiu-se reto e sólido como um edifício, possui solidamente o lençol e o colchão, a geladeira com tudo que há dentro, a latrina onde despeja o que não lhe aproveita; possui também seus pulmões que se dilatam e contraem na respiração, seu coração que suga e expele sangue, seu intestino que recebe e rejeita matéria. Dorme e todas essas partes de si trabalham. Em algum tempo dormirá definitivamente, e suas peças não mais operarão. Será então mais ou menos livre?

Posted by Igor at 02:30 PM | Comments (8)

agosto 08, 2005

Medo de cachorro

(Para a Aposta#1 - veja aqui e saiba mais aqui. Vejam também a Dani, o Rinoceronte e o Porco)

Desde criança tive medo de cachorros. Os cães da rua, grandes como leões para meu metro e vinte de quinze anos atrás, não eram cães de rua - comuns em bairros residenciais e distantes - eram feras violentíssimas com dentes mui agudos, e um imenso ódio à minha pequena e adorável pessoa.

Entende-se, sem que eu tenha que dizer (mas digo), que nunca tive um cachorro. Não parando na hostilidade com os cachorros de rua, era sempre desconfiado que entrava nas casas de pessoas que tinham um daqueles assassinos peludos no quintal.

Simples lógica infantil; se tem dente é para morder, pois para sorrir decerto não é. Desesperava vendo humanos - meu suposto lado na guerra fria - acolhendo e alimentando em suas casas os inimigos. Na minha casa, nunca.

Isso tudo foi antes da proclamação da república, pois a mim me parece que tornei-me namorado de minha atual mulher, senhôura, esposa e cônjuge durante o governo Washington Luís; e ela mesma tinha um cachorro. O inimigo infiltrado chama-se Vicky.

A convivência entre nós dois (eu e o cachorro) foi-se tornando menos tensa após alguns anos, à medida que eu inventava apelidos carinhosos para ele, como Extreme Fungus, Cabeça-de-Fluff (é um poodle) e o mais habitual de tempos para cá, Comunista. As três coisas ele é, e não vai nisso ofensa que exagere a realidade; e tão comunista que quis votar no plebiscito contra a Alca e vive dizendo que a Venezuela é o país mais democrático da América do Sul.

Bem que eu queria mandá-lo para Cuba. Agora eu tenho um filho, e não gosto muito dos olhares gulosos que o bicho dá para ele. Simples lógica adulta: Cachorro, comunista, fabricante de luvas de boxe, se tem dente é para morder.

Posted by Igor at 01:22 PM | Comments (8)