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« fevereiro 2006 | Principal | abril 2006 »
Nas aulas de física, ouvindo falar nos muitos e escabrosos fenômenos do céu posterior, no apetite infinito dos buracos negros, no inchaço que fatalmente acometerá nosso sol - e ele virá torrando Mercúrio e Vênus, engolindo a Terra, em sua ânsia por mais espaço, qual um viajante de classe econômica - estudando todas estas enormidades, nunca me assombrei. Sempre achei natural que as coisas grandes ficassem cada vez maiores, e as coisas quentes cada vez mais quentes. O que me impressionava não era que os astros pudessem fazê-lo; o que me impressionava e ainda impressiona é que não o façam.
Pois há um contrasenso num universo que nasce de uma explosão, mas mesmo assim seus corpos não encontram espaço e precisam se atropelar mutuamente, numa disputa de hockey cósmico tão perigosa quanto desajeitada. Um universo que se tornou enorme numa fração de segundos não possui espaço para que asteróides circulem à vontade, sem ameaçar nosso frágil planeta. Isso é um contrasenso, mas não é o contrasenso que me impressiona. É perfeitamente possível que haja abundância de espaço, sem que haja espaço sobrando para duas entidades... O que ainda me deixa abismado é outra coisa.
O que me comove é que estamos envolvidos num negócio perigosíssimo; aparentemente o sol pode nos lamber a qualquer momento, um asteróide pode querer tomar um banho de mar em um de nossos oceanos, um buraco negro pode dar um jeito de nos chupar, galáxia e tudo, para uma não-existência cremosa. E ainda assim, nada disso acontece: Alguma maravilha mantêm as estrelas afastadas, como no poema do ee cummings. Esta maravilha eu chamo de Amor. Essa mesma maravilha, segundo Dante, move o sol e as outras estrelas; e aqui esgoto a ciência, pois não há fenômeno natural; alguém afasta as estrelas fazendo-as andar. A ordem em nosso universo consiste em um movimento, o mesmo movimento que faz cientistas darem pulos de pânico, satisfação ou ambas as coisas quando um asteróide nos olha de soslaio...
Eis o maior segredo que ninguém conhece (eis a raiz da raiz e o caule do caule e o céu do céu de uma árvore chamada vida; que cresce mais alto que a alma pode esperar ou a mente esconder); e esta é a maravilha que tem mantido as estrelas afastadas.
Por Igor, 06:37 PM | Comentários (3)
O que quero no mundo é véu - é trama
urdida de paciência e mistério
(nada falta no mundo, neste sério
depósito de sobras)... ri-se a fama,
exposta em honor e vitupério:
Ri da torta na cara de quem ama,
ri da carne, do sangue, ri da lama,
e ri de rir, num ronco frouxo e fero.
Haveria razões de riso, caso
o riso não fosse filho de um siso
pouco encontrado neste aro aceso
de um fogo frio... mais um brilho teso
que fogo, uma vergonha sem juízo,
onde uma alma se afoga no raso!
Por Igor, 12:51 PM | Comentários (3)
Às vezes, tudo que eu quero é um prato de lentilhas para eu ganhar em troca de algumas primogenituras que são mais um fardo que uma benção.
Por Igor, 06:14 PM | Comentários (4)