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outubro 31, 2005

O que não se pode ver

Se o assunto deste texto e dos que se seguirão fosse um estudo sério, seria difícil escapar ao clichê de buscar no dicionário a definição do amor; na verdade, este hábito de atribuir ao dicionário a autoridade final na nomeação das coisas, e ao dicionarista a sabedoria suprema que nunca erra, não precisa ser analisada pela lógica para comprovarmos sua tolice; basta lembrarmos que trata-se de um lugar-comum, e nessa virtude poderia até ser correto, ou decorativo; mas não sendo jamais as duas coisas, não nos serve para início. Se este fosse um estudo sério, começaríamos pelo clichê; mas não me agrada nem a seriedade dos estudos nem dos clichês, e por isso, dispenso ambos.

Os bons escritores que o leitor e a leitora já terá lido decerto lhe ensinaram - pelo exemplo sutil da prática, e nunca, ou pouco, pela exibição pirotécnica do estilo - que não há mérito no texto que, querendo abordar um tema, já no primeiro parágrafo vai para um lado, quando o tema acena, vestido de púrpura, do outro lado; porque fazendo isso, o autor quer ter a chance de voltar ao esgotado parágrafo, para retomar seu caminho perdido. Ora, meu tema está em todo lado; posso atirar-me ao dicionarista todo-poderoso, que ainda no fim encontrarei o que procuro. Pelo menos o dicionarista supremo está lá, à minha espera; e se não há, como já disse, mérito em voltar ao que já disse, também não é mérito que estou buscando.

Aqui não posso me furtar a uma definição: Quem é o dicionarista? Como começou o dicionarismo? Porque tanta confiança é dada a este homem que dedica sua vida a declarar, em uma categorização gramática e cinco palavras de definição, que coisa é uma tertúlia, um junco - já crendo que uma tertúlia caiba em cinco palavras, e um junco em dois centímetros de altura por três de largura, em letras pretas no papel branco - que coisa é um nome?

O primeiro dos dicionaristas foi Adão; foi Deus que, tendo criado o céu e a terra, e todas as árvores e animais para habitarem a terra, deu ao nosso ancestral comum a tarefa de dar nome a cada um dos animais que habitavam a terra.

O trabalho de dar nomes, se foi com certeza o primeiro a ser praticado na terra, não se encerra em si; mas inclui necessariamente o trabalho de registrar os nomes, pois não haveria nenhum valor em decidir que aquele animal é um elefante, se depois não se pode lembrar que seu nome é elefante; a Bíblia omite este registro, se houve, mas pelo menos a memória de Adão para isso terá servido; tendo Adão sido, provavelmente, não apenas o primeiro homem, mas também o primeiro dicionário.

*

Mas tendo dado nome a tudo, Adão ainda guardava um nome dentro de si.

Não se achava entre as feras da terra uma que fosse semelhante a Adão; de forma que o espírito e a carne deste senhor estavam como que incompletos. Este defeito só poderia ser solucionado, sabemos hoje, pelo Amor; pois foi o Amor que fez Adão adormecer profundamente, e, tirando-lhe uma costela que sobrava, fez para ele a companheira que lhe faltava.

E hoje ainda sentimos, cada vez que amamos, aquela mesma realização: Eis a carne de minha carne e os ossos dos meus ossos; e sabemos sem saber que o destino de nosso amor foi preparado pelo verdadeiro Amor enquanto dormíamos; pois quando dormimos fechamos os olhos, e ninguém pode ver o Amor e continuar vivendo.

Por Igor, 07:06 PM | Comentários (2)

outubro 26, 2005

Que move o sol e as outras estrelas

A partir de agora este blog passa a ter somente um assunto.

Não escreverei sobre mais nada. Naïf Gendarme agora é um blog temático.

Este blog será, a partir deste post, exclusivamente sobre o Amor.

Porque o Amor é imenso; o amor é infinito. E a vida é curta demais. Começando agora, posso falar muito sobre o Amor, até morrer; ainda terei falado pouco.

Porque o Amor é o que há de mais alto, ele alcança mais embaixo. Não há lugar onde o Amor não chegue. O Amor está aqui do meu lado, afagando minhas costas com sua mão almofadada. O Amor está ao seu lado também, leitor ou leitora, e desejo que ele não seja como uma coceira em seu couro cabeludo; carícia ou chibatada, mas que você o sinta, não sutilmente, não vagamente, mas sólido e pesado. O Amor não conhece a sutileza, porque sutileza é mistura, e o Amor só existe puro.

*

Esse post é um compromisso e uma libertação.

Faz poucos disa, senti que estava lutando contra fantasmas, contra feras feitas de fumaça. Estava tentando agarrar objetos irreais. Tudo é tão irreal, exceto o que você pode sentir - e não há nada mais disponível para se sentir que o Amor. Basta ter algum espaço livre para o que é real; pois nada é mais real que o Amor. No Amor não existe ilusão, no Amor não acontecem enganos e mal-entendidos; porque o Amor é verdadeiro.

Mas perdemos décadas de nossa vida brigando com imagens, desejando lembranças, pensando sobre possibilidades. Eu não sou inteligente nem corajoso; tenho lutado - como Jacó lutou - contra alguém que não é uma abstração; tudo que quero é algo real; e a partir de agora só vou pensar sobre o que existe, e não há nada que exista mais que o Amor.

Gostaria de dar ao Amor tudo que tenho; por enquanto, à guisa de primeiro passo, dou-lhe este blog, que se é bem pouco, pelo menos é algo que existe; há quem destine ao Amor coisas tão belas quanto imaginárias, porque o Amor envergonha como mãe de adolescente (quando você é adolescente). A verdade é que todos nós sentimos certa gratidão pelo amor, todos queremos retribuir o amor a Deus, que é o mesmo que retribuir o amor ao Amor, mas muitos sentem vergonha disso; então nossa entrega, nossa oferta é inconfessa; o ato que praticamos por amor costuma ficar lançado em nosso livro-caixa mental com uma descrição enigmática, porque somos adultos e não acreditamos em contos de fadas. Não existe Amor, toda boca sensata proclama, enquanto as bochechas se incham de Amor travesso querendo sair. Estamos todos cheios de amor, e tentamos escondê-lo o mais possível.

Eu sou burro e fraco; não tenho inteligência para esconder o amor nem força para impedi-lo de sair. Ele que fuja, porque o Amor é a única coisa boa que se expande.

Por Igor, 06:43 PM | Comentários (3)

outubro 25, 2005

Não gosto de Cinema

[Este texto foi publicado no meu blog antigo um dia depois da cerimônia de entrega do Oscar deste ano, e agora republico uma versão adaptada para a aposta#3 - veja mais aqui]

Não gosto de cinema, porque não gosto de quem gosta de cinema.

Gostar de cinema faz você ficar muito chatinho, como qualquer dileção artística. Gostar simplesmente não basta; é preciso categorizar seu gosto - primeiro gosta-se da forma de arte, depois elege-se uma escola ou estilo, daí um autor em especial. Tudo isso é causado pela vontade de parecer inteligente, e só precisa de um certo investimento de tempo para conhecer o negócio, mas o sujeito que chega nesse ponto dá-se arezinhos eruditos, usa óculos estranhos, e então já tudo está perdido.

Não gosto de cinema, por isso não entendo do assunto. Gosto de alguns filmes, mas me sinto mal ao perceber que a coisa se resume a isso - gosto, não gosto ou nem me interesso, caso mais comum e aplicável a todos os filmes concorrendo ao Oscar de qualquer coisa este ano. Já os comentários de um convidado da Globo (a memória, renitente, diz-me que era o José Wilker, mas a vergonha de sabê-lo impede-me confessá-lo) sobre os filmes citados me confirmavam a impressão de que Cinema é a maior chateação. Entender de cinema, então, é a maior chatice.

Quem gosta de cinema discute (palavra-lei) sobre enquadramento, fotografia, decupagem, etc. e eu me sinto tão mais burro quanto infinitamente mais clever. Elogia-se a maturidade de um filme, e eu penso Papai do céu, onde estás que não os fulminas com fogo e enxofre dos céus etc? Maturidade, Deus me livre - O que eles chamam de maturidade é pose de enfado, o estado de espírito adolescente por definição.

Não gosto de cinema porque não gosto de maturidade. Em nome dessa admirável virtude, o Wilker ficou felicíssimo quando uma musiquetinha espanholeta horrorosa, chatíssima, interpretada (outra palavra-lei) por um Antonio Banderas über-cafonão e um Carlos Santana que é simplesmente O Santana, o rei da vulgaridade instrumental, ganhou a estátua do careca. Ouvindo a peça, fiquei com a sensação que iam tocar Oye Como Va, quase uma expectativa - o Santana sempre quer tocar Oye Como Va - mas ficaram mesmo na babaquice de motocicreta, e com isso ganharam da música até que legalzinha do Counting Crows*, a nova banda do Chico César. E o mais ridículo são os fãs-desde-sempre, que nunca são fãs há mais de dois meses. Fenômeno verificado em Senhor dos Anéis, repetiu-se com O Aviador; vão deitar que todo mundo sempre admirou muito o Hughes sei-lá-quem. Hoje, sete meses idos pelo ralo, ninguém lembra, ninguém viu. Toda admiração eterna é tão rápida no parto quanto na morte.

Veremos agora se serei acusado de inveja ou frustração, outra palavra-lei dos babacas que não podem ver ninguém falando mal de algo que envolva dinheiro ou fama em escala maior que a própria vida de quem fala. Isso provará definitivamente minha superioridade intelectual; tomara até que alguém diga que tem pena de mim. Rá!

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* Accidentally in Love, música-tema de Shrek 2.

Por Igor, 12:38 PM | Comentários (2)