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Um sentimento comum a boa parte - quase me arrisco a dizer maioria, quase digo todos - de meus amigos, aqui no Rio de Janeiro, é a vontade de ir embora. Eu mesmo me incluo neste grupo; só quero mais algum dinheiro e uma cidade pequena com internet banda larga. Passo sebo nas canelas sem pensar duas vezes.
É difícil pensar nesta cidade, neste estado, e ver motivos para tanto oba-oba. Moramos numa lixeira. Já não se pode sequer dizer que vivemos a decadência - ultrapassamos este estágio. A podridão já nem fede, está diluída, eterizada; penetra os poros, antes de insultar os narizes.
Abstenho-me de citar os sintomas dessa desgraça; o que pode haver de ruim numa cidade, numa região dita metropolitana, com certeza há no Rio, e fartamente; mas o que há de bom é raro e pouco acessível. E tudo piora com a outra parcela dos habitantes, os ufanistas, que sustentam que o mundo gira em torno do Rio de Janeiro. Por favor, o Rio de Janeiro já não é o destino mais popular nem entre os turistas sexuais. Gritamos que o mundo quer ser Copacabana, mas o mundo provavelmente nem lembra que Copacabana existe; e faz muito bem.
Isso não é só do Rio, é do Brasil inteiro - essa mania de se atribuir importância além da devida. Pondo as coisas nos seus devidos lugares, o Rio de Janeiro é formado por dezenas de praias sujas, centenas de favelas, milhares de bandidos e milhões de pessoas grosseiras. Mas, aos olhos do povo, dos jornais, da TV, o Rio de Janeiro é um naco do éden. Maximizamos a importância de tudo que temos em grandes quantidades. Até favela já há quem ache lindo.
Estou indo amanhã para a Alemanha (mas volto). Verei se a copa do mundo, que será lá no ano que vem, importa tanto para eles quanto para nós. Duvido. Exageramos a importância da copa do mundo porque a seleção brasileira ganha. Já a fórmula 1 é desprezada porque não temos nenhum piloto que ganhe; e tenho a certeza que, se o campeonato mundial de arrotos fosse ganho por um brasileiro, seria transformado numa importantíssima competição esportiva.
O Rio de Janeiro é muito uma parte do Brasil, nesse aspecto. Tudo que nós temos em excesso é classificado como bom pela mente média do carioca. Aquilo que não se pode chamar de bom é desprezado, absorvido; e tudo que nos falta é considerado bobo, inútil ou nocivo. Quando bater o primeiro furação aqui, vai ser citado como exemplo de nosso "amplo espectro climático".
Antes disso, tomara que eu consiga fugir desse lugar, baby.
Por Igor, setembro 29, 2005 01:16 PM
concordo. quase todos os cariocas que conheço querem deixar o Rio.
e todos os cariocas que conheço, e que já estiveram em Porto Alegre, ou moram ou querem morar em Porto Alegre.
da mesma maneira, metade dos portoalegrenses inquietos que conheço querem morar no Rio. mas só depois que desistem de Londres, claro.
a solução é um programa de intercâmbios.
***
ESCAMBO ap 1 quarto mobiliado no bairro Petrópolis. tratar por telex.
Posted by: tiagón at setembro 30, 2005 05:53 PM
O arquiteto Oscar Stalinemayer acha as favelas uma obra maravilhosa e os barracos construções perfeitas do ponto de vista estético. Principalmente os que eram construidos nos morros, que na estação das chuvas desabavam e matavam dezenas de favelados.
Paulo Francis comentou que os pobres podem se consolar: morrem pela arte!
Posted by: Jorge Nobre at outubro 1, 2005 03:12 AM
Eu tb já me senti assim. É verdade, a podridão e o ufanismo idiota continuam imperando e atrapalhando em muito. Mesmo assim, apesar de tantos bostas-cidadãos e tanta decadência, meu conselho: larga o teclado e aproveita o que puder, antes de ir embora.
Abraço.
Posted by: Fernando at outubro 2, 2005 01:38 AM
Excelente o artigo, parabéns!
Posted by: Blog da Santa at outubro 2, 2005 02:42 AM
Perfeito.
Posted by: Cláudio at outubro 3, 2005 11:48 AM
Você está parecendo paulistano ou campineiro falando da sua cidade. ; )
Mas hoje é meio díficil falar mal do Brasil sem entrar em clichê. Parabéns. ;)
Posted by: André Kenji at outubro 3, 2005 03:06 PM
O que fazer ? É tudo verdade. Para quem gosta do Rio, como eu, é muito triste - mas a verdade é que eu também quero ir embora. Aqui, infelizmente, não dá mais para ficar. Pobre, Rio, pobre Brasil.
Posted by: Nemerson at outubro 4, 2005 05:44 PM
O que fazer ? É tudo verdade. Para quem gosta do Rio, como eu, é muito triste - mas a verdade é que eu também quero ir embora. Aqui, infelizmente, não dá mais para ficar. Pobre Rio, pobre Brasil.
Posted by: Nemerson at outubro 4, 2005 05:45 PM
Excelente texto. Concordo sobretudo quando vc fala desta mania besta dos cariocas se ufanarem desta cidade,varrendo a poeira para debaixo do tapete!!!
O pior cego é o que não quer ver!!! Talvez por isto tenhamos chegado a este estágio de caos e degradação urbana. Parabéns, e meu conselho: se puder , se manda mesmo, porque isto não tem mais jeito! Luiz
Posted by: Luiz Fernando at outubro 5, 2005 02:40 PM
Eu tenho 23, moro em São Luís, capital do estado de menor IDH do Brasil. Minha empresa me perguntou se que ir pra nossa sede nacional, no Rio. futuro = 2 x o atual...e aí? Vc iria???
Adíos.
Posted by: Will at outubro 6, 2005 11:22 PM
Já eu acho que os clichês são o que mais representa o Brasil. Falando mal ou bem dele. ;)
Posted by: Jules at outubro 11, 2005 10:45 PM
Dizem que é no Rio de Janeiro que vive o povo mais politizado do Brasil, mas só pode ser piada.
O carioca é somente um deslumbrado com a paisagem, como se isto bastasse como exemplo de qualidade de vida. É um alienado, um omisso, um demagogo. Nem nos bairros mais caros da cidade, onde se paga altíssimo IPTU o Rio é razoável. Só mediocridade e abandono. Aliás nosso atual prefeito tem sido um desastre total. Pobre Rio de Janeiro!
Posted by: Romero at outubro 29, 2005 02:31 AM
Nossa, tanta gente querendo sair do Rio e eu também... Cansei e sinto a mesma coisa. Mas para onde vai tanta gente? Eu estava pensando em Minas Gerais e até Chiador, um fim de mundo que nem celular tem. Talvez um lugar maiorzinho, claro.
Posted by: Adriana at julho 13, 2006 09:49 PM
É pena que o Rio esteja assim.
Acredito e nem preciso dizer que as maiores mnetrópolis do país de alguma maneira tem problemas aos montes.
Não vou "chover no molhado" mas gosto do Rio; sou nascido no interior de SP e sem dúvida a cidade é bela, pena que está suja e maltratada.
Sou engenheiro mecânico e trabalho com a Petrobras, pretendo até morar no Rio, dependendo das condições profissionais.
Boa sorte à todos os cariocas que amam essa cidade e se sentem tristes, assim como eu, de vê-la tão maltratada.
Posted by: Marcelo Carlos de Oliveira at julho 17, 2006 12:59 AM