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A moral do Cristianismo foi qualificada - muito para descanso de seus inimigos, que de modo geral estão contentes de decorar cinco ou dez epítetos desonrosos à nossa religião - de moral de escravos. Sejamos escravos, então; é como escravo que vou ver minha moral, é sob o fardo da fé e o chicote da penitência que vou analisar minha religião.
Para se analisar - obedientemente, como servo - a moral cristã, a primeira autoridade, capataz máximo, é a Bíblia Sagrada. Busque-se na Bíblia o que pode ser compreendido como lei moral, de comportamento - moldada num faça isso, não faça aquilo. Com a submissão de um cativo, comecemos pelo princípio. O que devemos fazer primeiro? Jesus responde: Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça, e tudo mais lhe será acrescido.
Então, o princípio de nossa moral é a busca do Reino de Deus. É uma tarefa, como de escravo. Devemos buscar este reino; como o encontraremos?
Jesus nos indica: o pobre de espírito possui o Reino dos Céus, o que chora será confortado, os mansos herdarão a terra, os que tem sede e fome de justiça serão saciados, os puros de coração verão a Deus, os pacíficos serão chamados de filhos de Deus; e aquele que é perseguido por causa da justiça possui o Reino dos Céus.
O Reino é a primeira e última recompensa prometida neste primeiro, e mais famoso, trecho do Sermão da Montanha; é um princípio, a que devemos buscar antes de tudo, e é um fim, o que teremos após tudo. Portanto, na moral cristã o fim é idêntico ao princípio; é isso que chamamos de integridade da fé. Mede-se a moral cristã pelo desejo que um cristão possui de possuir agora, antes de tudo, e no fim, depois de tudo, o reino de Deus. Os meios sugeridos são aqueles do último parágrafo, e mais: Se tua mão ou teu olhos te causam escândalo, arranque-os de teu corpo (pois é melhor herdar o reino sem o olho ou a mão que ir inteiro pro inferno); não jure, mas seja teu sim, sim e teu não, não; se te baterem numa face, oferece a outra; se te levarem a veste, oferece o manto; se te forçarem a andar uma milha, anda duas; ame seu inimigo, pois qualquer pecador é capaz de amar seus amigos. Sejam perfeitos, pois vosso Pai que está no céu é perfeito.
A fé é a submissão da inteligência à verdade - e sobre este tópico, talvez fosse mais polido esquecer que Jesus disse que "Se permanecerdes em minhas palavras, sereis de fato meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"; mas devemos sacrificar nossa polidez, como sacrificaríamos a mão ou o olho, quando nos ocorre tratar de assuntos de vida e de morte. A verdade nos libertará; e a ela nos submetemos, a ela tomamos como cruz, esta verdade massacrante - de que o verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós. Essa verdade é para nós como uma caixa cheia de ouro - pesada e valiosa, e tão mais pesada quanto mais valiosa. Nossa libertadora é que nos pesa; porque é essa liberdade que não suportamos. Que tipo de liberdade escraviza? Qual corrente é como asa em nossos pés? Que fardo nos torna mais leves? Não sabemos bem; agora vemos como em espelho e de maneira confusa, mas depois contemplaremos, face a face, este mistério da fé.
Este escravo que se julga livre, este liberto que se submete - eis o cristão, magra ração para leões e patético espetáculo para o mundo. Vejamos agora o homem livre.
Quem não é cristão, é livre - e livre para quê? Para fazer o que quer. Não tem nada que o prenda, nada que o limite; pode expandir-se, se quiser, até ocupar um volume equivalente à lua, ou encolher-se até ser confundido com formigas e cupins. E, de qualquer forma, continuará fazendo o que faz costumeiramente, a saber, ocupando espaço ou consumindo matéria; permanecerá humano; um estômago, dois pulmões, um coração, um intestino. Não muito diferente de um cadáver; a diferença entre o vivo e o morto será assombrosamente indescritível, para prejuízo dos vivos que seguem se preocupando com isso; haverá, para alívio, aqueles que não dão a mínima. Estes são livres para caçar borboletas, para pular corda, para tentar lamber os próprios cotovelos - e depois, descansar em sua placidez de homem livre e tranqüilo.
Mas há fatos que o homem livre não pode mudar - mesmo que esteja livre de trabalhar, livre de compromissos, completamente livre das outras pessoas - não estará livre da gravidade, ou da pressão atmosférica. Se duas placas tectônicas decidirem dançar um tango sob sua casa, nem mesmo quinhentas doses de toda sua liberdade serão capazes de salvá-lo, na melhor das hipóteses, da mudança. É livre, mas em algum momento perceberá que não é completamente auto-determinado - que não pode escolher tudo que lhe acontece. O senso do inevitável, no homem livre, é a primeira mancha da verdade; porque a verdade é pesada e veloz, não pára e deixa as opiniões e preferências atravessarem a rua; antes atropela-as, e quanto mais as opiniões dançam e observam a paisagem, ou as preferências param para estudar o fascinante traçado da faixa de pedestres, maior risco correm.
Nasce desse medo, desse pressentimento, a moral do homem livre, insubmisso, completo - que no fundo de si não quer dever nada a ninguém; sustenta seus hábitos, estabiliza seu dia-a-dia, endireita seus passos sobre o mundo com a mesma atenção que dispensa para endireitar as rodas de seu carro ou as paredes de sua casa. Apega-se ao mundo físico, e moralizando-o na reta verticalidade dos arranha-céus e na reta horizontalidade das estradas, moraliza-se na reta verticalidade do que lhe cabe na cabeça e na reta horizontalidade do que lhe encaixa entre os braços; mas sabe que age assim por não poder viver na região de seu cérebro onde tudo pode ser recurvado e espiralado, onde projetaria prédios flutuantes e sistemas solares em copos d'água; não sendo livre para viver segundo os próprios desejos, considera-se livre para viver segundo as próprias limitações. É senhor de si, e procura não dar muita atenção para o fato correspondente de ser escravo de si.
Não sendo escravo de um Deus, é escravo da gravidade ou do valor de Pi; não se abatendo sob o amor, cai sob a realidade que interpreta e se força a aceitar; não carregando o fardo da verdade, carrega a espada imaginária que lhe recorda a infância, e faz do mundo um palco de batalhas onde se decide qual é a marca de grampeadores mais vendida. Não acredita na alma, que não vê, mas acredita no átomo, que também não vê.
Cansado da luta, dorme pesadamente em sua cama, à noite; não deve nada a ninguém, construiu-se reto e sólido como um edifício, possui solidamente o lençol e o colchão, a geladeira com tudo que há dentro, a latrina onde despeja o que não lhe aproveita; possui também seus pulmões que se dilatam e contraem na respiração, seu coração que suga e expele sangue, seu intestino que recebe e rejeita matéria. Dorme e todas essas partes de si trabalham. Em algum tempo dormirá definitivamente, e suas peças não mais operarão. Será então mais ou menos livre?
Por Igor, setembro 19, 2005 02:30 PM
Priceless.
Posted by: Marcio at setembro 19, 2005 06:25 PM
Muito bom, Igor.
Posted by: Fileleno at setembro 20, 2005 01:21 AM
Igor, já que você teve o trabalho de ir à colina do Gravatá verificar, aqui está o email que eu mandei para ele ontem...:-)
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Gravatá, meu véio...
Esse texto indiretamente apócrifo, você colocou na sua coluna de hoje do jornal.
Pintando o sete
De Brasilia, Sabrina filosofa no blog "...é cor de rosa choque": "Semana é: para um preso, menos sete dias; para os felizes, sete motivos; para os tristes, mais sete dias; para a esperança, sete novas manhãs; para a insônia, sete longas noites; para os sozinhos, sete chances; para os ausentes, sete culpas; para os empresários, 25% do mês; para os economistas, 0,019 do ano; para o pessimista, sete riscos; para o otimista, sete oportunidades; para a terra, sete voltas; para cumprir o prazo, pouco; para criar o mundo, o suficiente; para uma gripe, a cura; para a história, nada; Para a vida....tudo!"
Então, preste atenção neste aqui em baixo, conseguido na página http://www.brainstorm9.com.br/arquivo_antigo/maio.htm
Para um preso, menos 7 dias.
Para um doente, mais 7 dias.
Para os felizes, 7 motivos.
Para os tristes, 7 remédios.
Para os ricos, 7 jantares.
Para os pobres, 7 fomes.
Para a esperança, 7 novas manhãs.
Para a insônia, 7 longas noites.
Para os sozinhos, 7 chances.
Para os ausentes, 7 culpas.
Para um cachorro, 49 dias.
Para uma mosca, 7 gerações.
Para os empresários, 25% do mês.
Para os economistas, 0.019 do ano.
Para o pessimista, 7 riscos.
Para o otimista, 7 oportunidades.
Para a Terra, 7 voltas.
Para o pescador, 7 partidas.
Para cumprir o prazo, pouco.
Para criar o mundo, o suficiente.
Para uma gripe, a cura.
Para uma rosa, a morte.
Para a História, nada.
Para a Época, tudo!
Semelhante?
Esse texto é de 2000, e faz parte da campanha de lançamento da revista Época, do mesmo grupo do Globo, criada pela W/Brasil, com o próprio Washington Olivetto à frente. Me impressionou que você, jornalista da casa, não se lembrasse dele, já que ele ganhou inúmeros prêmios e pode ser encontrado por toda a rede numa busca simples no Google...
Se quiser ver a peça, basta baixar aqui: http://www.wbrasil.com.br/campanhas/filmes/filme_2_25.mov
Boa sorte.
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(Igor: E tinha mais umas mancadinhas por lá. Valeu, Marcos. Ele tava meio distraído. Abraço,)
Posted by: MarcosVP at setembro 20, 2005 02:57 PM
Belo texto, Igor.
Um comentário lateral: a citação do Sermão da Montanha me fez lembrar um bonito ensaio do Joseph Brodsky sobre essa passagem do "oferece a outra face". Quem sabe eu o transcreva no meu blogue quando tiver tempo. Abração.
(Obrigado, Ruy. E fico esperando pela outra face ;-)
Posted by: Mr. Guavaman at setembro 20, 2005 08:01 PM
Cada vez melhor, Igor. O que mais me assusta é que na sua idade, os textos tendem a ficar ainda melhores com tempo.
Embora, vale lembrar, Niezstche falava da moral do escravo dentro do cristianismo não pela Bíblia em si, mas pelo uso que a Igreja fazia do "pecado original" e da culpa, no geral.
Mas, apesar de até gostar do alemão, o seu anti-cristianismo era um saco mesmo.
(Obrigado, André, pela visita e pelo elogio. E não desgosto tanto do Nietzsche, ignoro-o. Há coisas piores, como aquele cujo nome não se pode pronunciar. Abração)
Posted by: André Kenji at setembro 21, 2005 03:07 PM
Seu texto (por sinal - algo que você deve ouvir à exaustão - supreendente para sua idade) me lembrou do livrinho "A Angústia Humana" do Kierkaard. Lá ele diz que o cristão é o único que conhece a doença mortal - o desespero - pois o cristianismo 'lhe dá uma coragem ignorada pelo homem natural', coragem esta que considera recebida com o receio dum maior grau do terrível, isto é por sua capacidade de vislumbrar o transcendente.
Exemplar do pessimismo escandinavo - e do pessimismo intrínceco à doutrina cristã em geral.
Abçs
(Evelyn, li este livro umas cinco, seis vezes - A tradução era ruim, complicava bastante. Mas não conseguia parar de ler. Kierkegaard é uma grande influência sobre mim; mas não gosto muito de levar a coisa sob o termo pessimismo. O maior otimista é o Cristão; pois temos uma esperança melhor, além do tempo. Abraço, e volte sempre - Igor)
Posted by: Evelyn at setembro 23, 2005 01:52 AM
Seu post me lembrou as excursões sobre o cristianismo que o escandinavo pessimista Kierkgaard faz em seu "A angústia humana".
Já leu algo dele?
Abçs!
(Já, sim, Evelyn - É um dos autores que pretendo esgotar, ler a obra inteira. Mas não sou pessimista :-)
Posted by: Evelyn at setembro 23, 2005 04:01 AM
Cara, primeira vez que entro no teu blog... e que belo post encontro aqui.
Retornarei.
Abraço.
(Obrigado, Eliot, e retorne, retorne. Abraço, Igor)
Posted by: Eliot at setembro 28, 2005 02:17 AM