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« agosto 2005 | Principal | outubro 2005 »
Um sentimento comum a boa parte - quase me arrisco a dizer maioria, quase digo todos - de meus amigos, aqui no Rio de Janeiro, é a vontade de ir embora. Eu mesmo me incluo neste grupo; só quero mais algum dinheiro e uma cidade pequena com internet banda larga. Passo sebo nas canelas sem pensar duas vezes.
É difícil pensar nesta cidade, neste estado, e ver motivos para tanto oba-oba. Moramos numa lixeira. Já não se pode sequer dizer que vivemos a decadência - ultrapassamos este estágio. A podridão já nem fede, está diluída, eterizada; penetra os poros, antes de insultar os narizes.
Abstenho-me de citar os sintomas dessa desgraça; o que pode haver de ruim numa cidade, numa região dita metropolitana, com certeza há no Rio, e fartamente; mas o que há de bom é raro e pouco acessível. E tudo piora com a outra parcela dos habitantes, os ufanistas, que sustentam que o mundo gira em torno do Rio de Janeiro. Por favor, o Rio de Janeiro já não é o destino mais popular nem entre os turistas sexuais. Gritamos que o mundo quer ser Copacabana, mas o mundo provavelmente nem lembra que Copacabana existe; e faz muito bem.
Isso não é só do Rio, é do Brasil inteiro - essa mania de se atribuir importância além da devida. Pondo as coisas nos seus devidos lugares, o Rio de Janeiro é formado por dezenas de praias sujas, centenas de favelas, milhares de bandidos e milhões de pessoas grosseiras. Mas, aos olhos do povo, dos jornais, da TV, o Rio de Janeiro é um naco do éden. Maximizamos a importância de tudo que temos em grandes quantidades. Até favela já há quem ache lindo.
Estou indo amanhã para a Alemanha (mas volto). Verei se a copa do mundo, que será lá no ano que vem, importa tanto para eles quanto para nós. Duvido. Exageramos a importância da copa do mundo porque a seleção brasileira ganha. Já a fórmula 1 é desprezada porque não temos nenhum piloto que ganhe; e tenho a certeza que, se o campeonato mundial de arrotos fosse ganho por um brasileiro, seria transformado numa importantíssima competição esportiva.
O Rio de Janeiro é muito uma parte do Brasil, nesse aspecto. Tudo que nós temos em excesso é classificado como bom pela mente média do carioca. Aquilo que não se pode chamar de bom é desprezado, absorvido; e tudo que nos falta é considerado bobo, inútil ou nocivo. Quando bater o primeiro furação aqui, vai ser citado como exemplo de nosso "amplo espectro climático".
Antes disso, tomara que eu consiga fugir desse lugar, baby.
Por Igor, 01:16 PM | Comentários (14)
Eu Sou Terrível
(Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
Eu sou terrível e é bom parar
De desse jeito me provocar
Você não sabe de onde venho
O que eu sou, nem o que tenho
Eu sou terrível, vou lhe dizer
Que ponho mesmo pra derreter
Estou com a razão no que digo
Não tenho medo nem do perigo
Minha caranga é máquina quente
Eu sou terrível e é bom parar
Porque agora vou decolar
Não é preciso nem avião
Eu vôo mesmo aqui no chão
Eu sou terrível, vou lhe contar
Não vai ser mole me acompanhar
Garota que andar do meu lado
Vai ver que eu ando mesmo apressado
Minha caranga é máquina quente
Eu sou terrível...
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Eu prefiro as curvas da estrada de Santos. Existem mil garotas querendo passear comigo! BYE!
Por Igor, 11:07 PM | Comentários (4)
A moral do Cristianismo foi qualificada - muito para descanso de seus inimigos, que de modo geral estão contentes de decorar cinco ou dez epítetos desonrosos à nossa religião - de moral de escravos. Sejamos escravos, então; é como escravo que vou ver minha moral, é sob o fardo da fé e o chicote da penitência que vou analisar minha religião.
Para se analisar - obedientemente, como servo - a moral cristã, a primeira autoridade, capataz máximo, é a Bíblia Sagrada. Busque-se na Bíblia o que pode ser compreendido como lei moral, de comportamento - moldada num faça isso, não faça aquilo. Com a submissão de um cativo, comecemos pelo princípio. O que devemos fazer primeiro? Jesus responde: Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua Justiça, e tudo mais lhe será acrescido.
Então, o princípio de nossa moral é a busca do Reino de Deus. É uma tarefa, como de escravo. Devemos buscar este reino; como o encontraremos?
Jesus nos indica: o pobre de espírito possui o Reino dos Céus, o que chora será confortado, os mansos herdarão a terra, os que tem sede e fome de justiça serão saciados, os puros de coração verão a Deus, os pacíficos serão chamados de filhos de Deus; e aquele que é perseguido por causa da justiça possui o Reino dos Céus.
O Reino é a primeira e última recompensa prometida neste primeiro, e mais famoso, trecho do Sermão da Montanha; é um princípio, a que devemos buscar antes de tudo, e é um fim, o que teremos após tudo. Portanto, na moral cristã o fim é idêntico ao princípio; é isso que chamamos de integridade da fé. Mede-se a moral cristã pelo desejo que um cristão possui de possuir agora, antes de tudo, e no fim, depois de tudo, o reino de Deus. Os meios sugeridos são aqueles do último parágrafo, e mais: Se tua mão ou teu olhos te causam escândalo, arranque-os de teu corpo (pois é melhor herdar o reino sem o olho ou a mão que ir inteiro pro inferno); não jure, mas seja teu sim, sim e teu não, não; se te baterem numa face, oferece a outra; se te levarem a veste, oferece o manto; se te forçarem a andar uma milha, anda duas; ame seu inimigo, pois qualquer pecador é capaz de amar seus amigos. Sejam perfeitos, pois vosso Pai que está no céu é perfeito.
A fé é a submissão da inteligência à verdade - e sobre este tópico, talvez fosse mais polido esquecer que Jesus disse que "Se permanecerdes em minhas palavras, sereis de fato meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"; mas devemos sacrificar nossa polidez, como sacrificaríamos a mão ou o olho, quando nos ocorre tratar de assuntos de vida e de morte. A verdade nos libertará; e a ela nos submetemos, a ela tomamos como cruz, esta verdade massacrante - de que o verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós. Essa verdade é para nós como uma caixa cheia de ouro - pesada e valiosa, e tão mais pesada quanto mais valiosa. Nossa libertadora é que nos pesa; porque é essa liberdade que não suportamos. Que tipo de liberdade escraviza? Qual corrente é como asa em nossos pés? Que fardo nos torna mais leves? Não sabemos bem; agora vemos como em espelho e de maneira confusa, mas depois contemplaremos, face a face, este mistério da fé.
Este escravo que se julga livre, este liberto que se submete - eis o cristão, magra ração para leões e patético espetáculo para o mundo. Vejamos agora o homem livre.
Quem não é cristão, é livre - e livre para quê? Para fazer o que quer. Não tem nada que o prenda, nada que o limite; pode expandir-se, se quiser, até ocupar um volume equivalente à lua, ou encolher-se até ser confundido com formigas e cupins. E, de qualquer forma, continuará fazendo o que faz costumeiramente, a saber, ocupando espaço ou consumindo matéria; permanecerá humano; um estômago, dois pulmões, um coração, um intestino. Não muito diferente de um cadáver; a diferença entre o vivo e o morto será assombrosamente indescritível, para prejuízo dos vivos que seguem se preocupando com isso; haverá, para alívio, aqueles que não dão a mínima. Estes são livres para caçar borboletas, para pular corda, para tentar lamber os próprios cotovelos - e depois, descansar em sua placidez de homem livre e tranqüilo.
Mas há fatos que o homem livre não pode mudar - mesmo que esteja livre de trabalhar, livre de compromissos, completamente livre das outras pessoas - não estará livre da gravidade, ou da pressão atmosférica. Se duas placas tectônicas decidirem dançar um tango sob sua casa, nem mesmo quinhentas doses de toda sua liberdade serão capazes de salvá-lo, na melhor das hipóteses, da mudança. É livre, mas em algum momento perceberá que não é completamente auto-determinado - que não pode escolher tudo que lhe acontece. O senso do inevitável, no homem livre, é a primeira mancha da verdade; porque a verdade é pesada e veloz, não pára e deixa as opiniões e preferências atravessarem a rua; antes atropela-as, e quanto mais as opiniões dançam e observam a paisagem, ou as preferências param para estudar o fascinante traçado da faixa de pedestres, maior risco correm.
Nasce desse medo, desse pressentimento, a moral do homem livre, insubmisso, completo - que no fundo de si não quer dever nada a ninguém; sustenta seus hábitos, estabiliza seu dia-a-dia, endireita seus passos sobre o mundo com a mesma atenção que dispensa para endireitar as rodas de seu carro ou as paredes de sua casa. Apega-se ao mundo físico, e moralizando-o na reta verticalidade dos arranha-céus e na reta horizontalidade das estradas, moraliza-se na reta verticalidade do que lhe cabe na cabeça e na reta horizontalidade do que lhe encaixa entre os braços; mas sabe que age assim por não poder viver na região de seu cérebro onde tudo pode ser recurvado e espiralado, onde projetaria prédios flutuantes e sistemas solares em copos d'água; não sendo livre para viver segundo os próprios desejos, considera-se livre para viver segundo as próprias limitações. É senhor de si, e procura não dar muita atenção para o fato correspondente de ser escravo de si.
Não sendo escravo de um Deus, é escravo da gravidade ou do valor de Pi; não se abatendo sob o amor, cai sob a realidade que interpreta e se força a aceitar; não carregando o fardo da verdade, carrega a espada imaginária que lhe recorda a infância, e faz do mundo um palco de batalhas onde se decide qual é a marca de grampeadores mais vendida. Não acredita na alma, que não vê, mas acredita no átomo, que também não vê.
Cansado da luta, dorme pesadamente em sua cama, à noite; não deve nada a ninguém, construiu-se reto e sólido como um edifício, possui solidamente o lençol e o colchão, a geladeira com tudo que há dentro, a latrina onde despeja o que não lhe aproveita; possui também seus pulmões que se dilatam e contraem na respiração, seu coração que suga e expele sangue, seu intestino que recebe e rejeita matéria. Dorme e todas essas partes de si trabalham. Em algum tempo dormirá definitivamente, e suas peças não mais operarão. Será então mais ou menos livre?
Por Igor, 02:30 PM | Comentários (8)
A mão é articulada, e assim tateia.
Parece ter cinco almas, uma em cada dedo;
Cada alma (uma à outra) causa amor e medo,
E de amor e medo a mão se encontra cheia.
A mão tateia porque não tem olho.
Os olhos desconhecem deste braço a ponta,
E se a mão se lhes mostra, crêem que é afronta;
E o que buscam está ao lado, a grato escolho.
A semelhança sólida que a mão procura
É também semelhante à luz que os olhos vêem,
Mas ambos vivem sempre nessa lide dura.
Buscando longe um o que o outro tem,
Da mão a solidez morna, do olho a luz pura,
Tão perto, não se encontram; não o farão além.
Por Igor, 03:09 PM | Comentários (2)
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Responder "hã?" quando a sogra comenta que o Lula está blá-blá-blá: Não tem preço.
E para quem também se interessa por isso, uma foto do Davi (que tem um apelido familiar que vocês nunca saberão qual é. Herança minha; está-se criando uma nova dinastia):
Quantas piadas internas cabem aqui! De dentro deste post, centenas de pilhérias, chistes e bazófias que somente minha mulher entenderia vos contemplam, silenciosamente; funchos.
Por Igor, 07:20 PM | Comentários (8)