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agosto 10, 2005

Vontade de assobiar

Estava preparando esse texto - com o shift apertado para digitar a primeira letra da frase, maiúscula - e, enquanto pensava sobre o que escrever, o windows me disse que manter a tecla apertada por cinco segundos habilita uma função qualquer que não me interessou, e eu mandei desabilitar.

Nada errado nisso; a máquina tinha a instrução de ligar essa opção se algum usuário, consciente ou não do que faz, resolvesse atender à condição que lhe ensinaram. Se o windows não ativasse o sticky keys, isso seria um erro; eu não perceberia, mas ainda assim.

Pensei nas estórias em que sinais são combinados entre pessoas - e um incauto, sem querer, se encaixa perfeitamente na descrição, na mesma hora e lugar - e com a ausência do contato realmente esperado. Em especial, uma história antiga do mickey, publicada num dos primeiros números do Pato Donald - A minnie deseja um chapéu vermelho e, usando-o, é confundida com uma outra rata que levaria um rubi para uma quadrilha e deveria ser interceptada por um homem com uma caixa de bombons, para que este a levasse ao esconderijo. A rata aquela encontra o mickey, que leva uma caixa de bombons para a minnie. Assim os dois, por causa de um chapéu, resolvem um caso de roubo de jóias.

Por causa de um chapéu, na vida real muito provavelmente seriam apenas mortos. E por coisas assim - por um chapéu, por um chocolate, por ler um blog - por gostos e desejos prosaicos, que não deveriam dizer nada, muitas vezes há quem deseje ver em nós o que não há. Assim como usar um chapéu transforma uma rata em uma ladra de jóias, talvez ler este texto esteja transformando você num membro de uma sociedade internacional de espionagem, por exemplo.

Em "Moscou contra 007", as senhas e contra-senhas para identificação de espiões do serviço secreto britânico são algo como "O senhor tem fósforos?" "Uso isqueiro" "Tanto melhor" "Enquanto funcionam". Neste caso, basta alguém pedir fósforos e responder que isqueiros são melhores para ser tomado por um espião. No caso de um fumante, as probabilidades de algo do tipo acontecer são bem altas.

Chesterton escreveu que somente o homem louco acha que tudo tem um motivo; isso porque acha que todos estão em perpétua conspiração contra ele, e por isso se aquele senhor assobia Penny Lane, isso é um sinal combinado entre eles para atacá-lo. Não lhe ocorre que ele simplesmente tenha vontade de assobiar; todo doido se acha o centro do mundo, e todas as ações humanas devem levá-lo em conta de alguma maneira.

Daí é muito simples chegar a uma conclusão segregacionista - quem faz isso é paranóico, ou bandido, ou tem algo a esconder - não nós, pessoas normais, 90% da população. Se é assim, então 90% das gentes do mundo são loucos, bandidos ou espiões - porque é justamente essa maioria, da qual conheço uma pequena amostra, mas provavelmente representativa da totalidade, que vê nos atos descomprometidos, desmotivados, que mesmo esses 90% praticam diariamente - tudo, ameaças e sinais combinados, relatórios e pedidos de reforços - tudo, menos a simples e humana vontade de usar um chapéu ou assobiar.

Por Igor, agosto 10, 2005 01:03 PM

Comentários

Não somos paranóicos. Isso é tudo intriga desses grupinhos que ficam 24 horas conspirando para derrubar a gente.

Posted by: Nelson Moraes at agosto 13, 2005 11:21 PM

Muito bom, lindo. Lindo? Adjetivos à parte, gostei muito.

Posted by: Juliana at agosto 14, 2005 08:42 PM

Ah, eu sempre me achei um tanto paranóico. O problema de ser paranóico e saber disso é que quando a gente estava certo na paranóia dá uma raiva desgraçada.

Chesterton que estava certo, heh?

Posted by: Luciano at agosto 16, 2005 12:51 AM

Estamos sendo vigiados!

Posted by: david at agosto 16, 2005 03:24 PM

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