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Na verdade, meu caro, nós raramente sabemos opor à ciência dos especialistas, robusta pelos detalhes, uma Fé que também desça às minúcias das coisas concretas. Parece-nos muitas vezes que o melhor modo de crer seja o reticente. Pairamos, não digo no mistério que é denso de detalhes mas na névoa das generalidades. Cultivamos uma fé sem curiosidades, no firmamento das essências, além e mais alto do que o céu das existências. Ora, o que existe é o detalhe. O que existe é um dente arrancado; é um olho cansado de piscar em tão prolongada quão descabida malícia. Valha-nos pois a Fé onde o especialista mal nos vale.
Nós cremos na ressurreição. Por isso, quando me lembro de meus pobres incisivos, sangrentos em cima da mesa de vidro do dentista, tão feios e tão ridículos; e quando me vejo agora ao espelho um olho injetado e torto; eu digo de mim para mim, e de mim para Deus, que esses pedaços de mim mesmo debalde se espalharão pelos quatro cantos do mundo; que meus dentes poderão descer nas enxurradas do lixo às profundezas do mar; que a maior das bombas poderá pulverizar o menor dos meus ossos. No dia da ressurreição o Senhor dos Exércitos saberá mui exatamente qual é o meu dente e qual é o meu olho, pois nesse dia a sua misericórdia tomará a si a palavra dura de sua justiça: olho por olho, dente por dente.
(Gustavo Corção, em A Ordem, Maio de 1947)
Por Igor, julho 25, 2005 01:41 PM