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« junho 2005 | Principal | agosto 2005 »
Sinceramente, não sei o que as pessoas acham tão bom no Achtung, Baby. Para mim, O álbum do U2 é October - Batizado com o nome do lindo mês em que eu nasci. Ou All that you can't leave behind.
Crianças, crianças: Não escutem Bush. Não o George, com esse eu não tenho nada a ver - esse Bush, que as rádios iraquianas chamam B-U-S-H. Ouçam Soundgarden que é bem mió, ou mesmo A-l-i-c-e-I-n-C-h-a-i-n-s.
Por Igor, 07:02 PM | Comentários (2)
(...)
Na verdade, meu caro, nós raramente sabemos opor à ciência dos especialistas, robusta pelos detalhes, uma Fé que também desça às minúcias das coisas concretas. Parece-nos muitas vezes que o melhor modo de crer seja o reticente. Pairamos, não digo no mistério que é denso de detalhes mas na névoa das generalidades. Cultivamos uma fé sem curiosidades, no firmamento das essências, além e mais alto do que o céu das existências. Ora, o que existe é o detalhe. O que existe é um dente arrancado; é um olho cansado de piscar em tão prolongada quão descabida malícia. Valha-nos pois a Fé onde o especialista mal nos vale.
Nós cremos na ressurreição. Por isso, quando me lembro de meus pobres incisivos, sangrentos em cima da mesa de vidro do dentista, tão feios e tão ridículos; e quando me vejo agora ao espelho um olho injetado e torto; eu digo de mim para mim, e de mim para Deus, que esses pedaços de mim mesmo debalde se espalharão pelos quatro cantos do mundo; que meus dentes poderão descer nas enxurradas do lixo às profundezas do mar; que a maior das bombas poderá pulverizar o menor dos meus ossos. No dia da ressurreição o Senhor dos Exércitos saberá mui exatamente qual é o meu dente e qual é o meu olho, pois nesse dia a sua misericórdia tomará a si a palavra dura de sua justiça: olho por olho, dente por dente.
(Gustavo Corção, em A Ordem, Maio de 1947)
Por Igor, 01:41 PM | Comentários (0)
Blogmotion!
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Plagiando Sergei, hein?
Por Igor, 09:10 PM | Comentários (2)
Meu pai serviu à Marinha. Entrou pelo alistamento em 1960, eu acho - pouco mais ou menos. Estava lá quando houve a revolução, ou golpe, ou festa da goiaba de '64. As estórias são engraçadas; principalmente nos detalhes que o presente confundia, justamente por ser presente, e hoje parecem tão claros na versão quase oficial que nossos professores de história cospem, ano após ano, nas cabeças ensinomedianas.
Mas o lado bom de servir a Marinha era com certeza o fato de ele viajar muito. Certa vez, ele estava em Lisboa - Por algum motivo que agora não me lembro, na primeira vez que eles foram a Portugal, os brasileiros eram muito populares por lá; na segunda menos, e na terceira ignorados ou hostilizados.
Então, na terceira viagem, chegou um gajo perguntando a meu pai (que na época não era meu pai): "Ô pá, é então verdade que lá no Brasil se matam pessoas?"
E o Sargento Eraldo, de folga e levemente etilizado, respondeu ao patrício: "Rapaz, a coisa lá tá tão feia que eles matam dez hoje e amarram dez no poste pra matar amanhã".
Needless to say, o portuga ficou meio chocado.
Por Igor, 01:06 PM | Comentários (1)
Uma coisa engraçada sobre meu filho é que sempre que eu tento fazê-lo dormir, eu durmo antes.
(
A maioria das pessoas acha estranho que eu seja pai com essa idade. Eu tinha que ser com alguma idade; a opção era nunca, e isso eu não queria. Nunca vi muita diferença entre ter vinte e trinta anos. Quanto eu tinha oito, achava que aos vinte seria adulto. Naquela época, quem tinha vinte anos era isso, adulto. Cheguei aos vinte anos e continuo do mesmo jeito que doze anos atrás, achando que essa é a idade de ser adulto. Então, eu sou.
)
Em geral, meu filho é tremendamente divertido. E ser casado é algo que eu recomendo a todos os meus amigos.
Minha mulher está mais bonita. E ela é uma ótima mãe e nunca imaginei que seria tão boa esposa também. Meu filho parece comigo e com ela; mais com ela que comigo.
Tenho menos tempo para ler e escrever, é verdade. Mas seguro meu filho sobre minha cabeça, porque ele gosta de voar; eu beijo a bochecha dele e ele ri. De manhã, quando ele acorda, Cintia põe ele em nossa cama e ele ri para mim quando eu abro os olhos. Eu o levo para passear sábado de manhã, enquanto a mãe dele descansa mais um pouco; ele fica atento às árvores e as pessoas sorriem para nós.
E tenho um palpite que meu apelido será Igolias, quando ele aprender sobre aquele xará famoso que ele tem (o Butter não, o outro).
Por Igor, 03:37 PM | Comentários (5)
Cresci no que as enciclopédias chamavam família nuclear; aos cinco ou seis anos achava que isso tinha algo a ver com a bomba, como se famílias menores pudessem se defender melhor. O fato é que meus primos quase todos moravam em outro estado, os mais próximos em outra cidade, e por isso toda minha infância aconteceu entre meus pais e meus irmãos. Nem conheci meus avós (nenhum dos quatro), apesar de que três estavam vivos quando eu nasci, e morreram quando tinha seis, nove e dezesseis anos, se não estou errado.
Assim, o mais perto que cheguei da morte foi com meus brinquedos perdidos e vidas gastas no videogame, mas eu jogava bem e o game over era raro.
Cresci sem saber como era a morte, exceto numa noite em que meu pai me comprou um desses balões de hélio que flutuam. Talvez pensando que o tal balão nunca subiria além do meu alcance, eu o soltei. O balão subiu muito rapidamente, e em menos de um minuto estava fora do que eu podia ver. Naquele dia experimentei pela primeira vez uma perda irreparável que mais tarde eu saberia que é o que sentimos quando morre alguém que amamos.
Eu soube quando morreu meu tio Diniz - meu tio de quem eu nunca tive tempo para ser muito sobrinho, mas tampouco a distância necessária para que ele não fizesse diferença em minha vida. Entre outras qualidades, o avô de minha prima. Naquele dia eu senti o mesmo que quando meu balão subiu - não que eu gostasse tanto do balão, eu mal o conhecia - o balão continuava existindo, mas eu nunca mais o veria. Ele estava simplesmente indo embora.
Da mesma forma, meu tio continuava existindo, ele estava simplesmente indo embora. Ele não se apagava do mundo e das lembranças pelo simples ato de morrer. Eu não poderia deixar de gostar dele só por causa disso. Mas eu nunca mais o veria.
A vontade de estar com ele nunca foi tão grande quanto no dia em que eu soube que nunca mais estaria com ele neste mundo.
Por Igor, 01:19 PM | Comentários (10)