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abril 29, 2005

O Céu dos Brasileiros

Quando as pessoas morrem, talvez vão para o céu, a maioria delas. Deus é misericordioso. Mas acontece que há muitas moradas na casa do Pai; de forma que Deus pode deixar que entrem no céu todos os atletas de Cristo, que não vão me incomodar com seus pagodes evangélicos e cerveja sem álcool – basta que Deus os mande para a zona norte do paraíso, para uma churrascaria etérea, o que não vai deixar de ser celestial para eles.

Talvez haja regiões, cidades celestes para todos os tipos de gente, mesmo os crentes de subúrbio, os crentes de TV, os ecochatos, os fabricantes de guarda-chuvas. E deve existir um paraíso para os brasileiros; e se houver, deve ser assim:

Quando eles morrem, vão para o limbo, que é uma padaria com pagode e churrasco, numa tarde de sábado. Cartazes xerocados de um original todo impresso em Comic Sans avisam:


MEGA ESCURSÃO PARA O
PARAÍSO
Dia: XX/XX, saída as 07:30 hs
Saída do Largo do Rodão

Contato: Valdson


E no dia combinado, por volta das 08:30, todo mundo já está pronto para sair, inclusive o ônibus com uma pintura de ilha com coqueiro e o sol se pondo - Jéssicatur - que acabou de chegar. Jéssica é o nome da filha do dono da empresa de viação, que coincidentemente é também o motorista, e por coincidência maior ainda só tem aquele ônibus.

Começa a alegre viagem. Os jovens vão todos cantando “chora bananeira, bananeira chora, chora bananeira, meu amor não vá embora”. Uma coroa no segundo banco atrás do motorista já tirou a blusa, calor que tá fazendo, e está usando um chapeuzinho rosa para cobrir a parte de cima do seu biquini azul-marinho esbranquiçado e um pouco da sua banha branca azulada.

No meio do caminho, o ônibus pára e deixa algumas pessoas no purgatório. A rapaziada começa então a cantar “Au, au, au, vai descer quem mora mal”, e o motorista põe de novo o pé na tábua, enxugando o suor da testa e do bigode com uma toalhinha azul.

Agora faltaria pouco, se o motor do ônibus não fosse morrer mais à frente. Mas o motorista, que também é brasileiro e não desiste nunca, resolve a situação com sua habilidade e a colaboração dos passageiros que desceram e empurraram o carro.

Chegando no céu é só alegria. Forma-se uma fila, ou algo semelhante, e os jovens, sempre eles, puxam: “Eu / sou brasileiro eu sou / e vou pro céu eu vou / e ninguém vai me segurar - Nem o capeta!”. São Pedro tenta organizar a fila, que a essa altura já tornou-se um completo mafuá.

Todos com menos de trinta anos pulam como crianças atrás das câmeras de TV em um bairro pobre; quando um anjo age com um pouco mais de energia para organizar a entrada das pessoas, um sujeito de uns quarenta anos, de cavanhaque, berra que vai “dar queixa ao diretor”. Uma gorda comenta “será que eu passo nessa roleta, olha que porta estreita”.

Todos entram e a festa começa, se é que se pode dizer já não havia começado. Churrasco, pagode, sinuca, piscina. Grupos de aposentados, se entupindo de cerveja vagabunda, jogam baralho em mesas de alumínio, dessas que se dobram. Os adolescentes tentam bolinar as meninas na piscina, e ficam com raiva da velha que não vai embora, com os pés na água - comentando que a natação é o esporte mais completo.

Aparece então alguém que deve ser do clube, pois não veio no ônibus. Barba e cabelos longos, não muito ordenados. Expressão de quem carrega nos olhos toda doçura e justiça.

É ele. Um dos adolescentes cochicha para outro: “É ele, cara. Eu sei que é ele. Meu ídolo, tenho uma camisa com esse rosto estampado. Vou lá falar com ele”.

E sai correndo na direção do barbudo, gritando: “Che! Che! Que prazer te ver por aqui! Me dá um autógrafo?”

Por Igor, 01:10 PM | Comentários (6)

abril 27, 2005

Gerinaldo, o

Gerinaldo tinha seis dedos e era pianista. Seu pai tinha quatro braços e já estava aposentado como massagista. Gerinaldo não tinha (nem teria) sucesso. Vivia ouvindo seu pai dizendo que devia procurar outro emprego:

- O homem deve fazer o que nasceu para fazer, meu filho...
- Então, pai. Eu tenho seis dedos; nasci para tocar piano.
- Isso é o que você pensa. Ninguém ouviria um pianista chamado Gerinaldo.

O sexto dedo então passou a dissonar.

Por Igor, 02:05 PM | Comentários (3)

abril 26, 2005

Poema a um amigo que me elogiou.

Meus dedos não soltam raios:

São falhos. Rimo meus medos
Em credos tão esquecíveis
que não esqueço tão cedo.

Mas que olho atento cura
Do que digo, se o faço
Nesta chã linguagem dura,
Neste arremedo de traço
Poético: cara-dura,
Rima achada sem procura?

Quem se importa se eu não?
Será o caso que, vendo-me
dono de um cérebro anão,
Seja visto como torre?
O bom senso sempre morre
se dá chance à sensação
que é fértil meu talento.

Para tal erro, um alento:
Meus dedos se rebelaram.
Cansaram-se do trabalho
cego que lhes pus às unhas;
como cordas se trançaram.
Estarão assim, revoltos,
Parecendo retirados
Por um tempo ou dois. Então

Voltarão a chatear-te.
Por-se-ão, outra vez, soltos,
Fingindo produzir arte.

Por Igor, 01:14 PM | Comentários (1)

abril 25, 2005

Proibições

Se todas as pessoas pudessem voar, quase ninguém – ou ninguém – continuaria andando a pé. O ato de caminhar seria desprezado; voar, afinal, é tão melhor e mais rápido. Mas caminhar não é ruim; imagine não ser capaz de caminhar. É para isso que existem as impossibilidades: Para que amemos as possibilidades. Não somos capazes de voar, não porque Deus seja egoísta e diga “Eu proíbo você, ser humano, de criar asas e sair voando”, mas porque Deus diz “Eu o faço com pernas e sem asas, ser humano, para que você experimente andar, e ache bom; e para que, gostando de andar com os pés no chão, não deixe de apreciar a idéia de voar pelo céu”.

Tudo que não temos serve para nos estimular a amar o que temos. O fato de não ser possível estar casado ao mesmo tempo com todas as mulheres do mundo serve para amarmos a mulher com quem casamos. Por não ser possível estar sob dois tetos ao mesmo tempo, ama-se o teto sob o qual se está. A impossibilidade de comer com duas bocas simultaneamente é um motivo para amar a boca que se tem.

Mesmo assim, as proibições e limitações existem muito mais vivamente na mente dos não-cristãos e não-religiosos. Um Cristão, de fato, não está impedido de nada – a divisão do que é humanamente possível ou impossível não faz sentido quando se acredita que Deus pode fazer tudo. Um cristão, em resumo, é aquele que entende os motivos pelo qual as coisas acontecem de certa maneira, por aceitar que as coisas são assim; poderiam ser diferentes, mas não são.

É por isso que qualquer intenção de mudar o mundo pode até estar muito correta, mas não pode ser assumida por um Cristão. Se alguém acredita que Deus fez o mundo, não tem o menor direito (para não falar em possibilidade) de tentar consertar a obra. Quem quer melhorar o mundo, fique à vontade, mas não se diga cristão.

Não quero dizer que o mundo está bom como está. Quero dizer, em coro com Leibniz, que não poderia estar melhor, exceto se Deus, que o construiu assim, o reconstruísse. E essa reforma do mundo, feita por Deus, é uma das esperanças cristãs.

As pedras caem no chão quando são arremessadas para o alto: Isso acontece porque Deus quis que assim fosse. Quando Deus quiser que elas não caiam, mas explodam como fogos de artifício, é assim que vai acontecer. Se podemos imaginar Deus sendo tolerante até com pedras, porque será impossível imaginar que Deus possa ser misericodioso com sua obra?

Por Igor, 07:33 PM | Comentários (6)

abril 22, 2005

Aurora

Aurora, she came from behind the mountains,
Her light and life she came giving along.
But her light and her life were spread among
People who don't deserve even the water from the fountains.

Aurora, she came from inside the sea,
Her love and goodness she was giving forth.
She came flying over the warm wind north:
And once again she was rejected. Then she could not see

Why people should need so much, and refuse
Aurora, she who came with life and light,
With love and goodness, the best reasons for both time and arts.

Aurora for a while remained confused,
But understood, at last, the way she might:
That she, Aurora, never comes inside bad people's hearts.

Por Igor, 01:20 PM | Comentários (0)

abril 20, 2005

Confissões

Pensei em escrever um livro confessional. O chato é que obras confessionais não podem ser publicadas por autores muito novos, então eu teria que esperar mais alguns anos.

Neste livro, eu contaria sobre quando cometia quase diariamente os sete pecados capitais, e o que é pior, muitas vezes apenas em pensamento; adicionando aos sete o oitavo pecado da covardia.

Desejei quase passionalmente escrever este livro. Já me sentia orgulhoso de meu próprio talento literário; mas escrevia apenas por inveja dos verdadeiros escritores. Mal havia produzido alguns parágrafos, e lembrei-me de uma excelente torta que minha mulher havia preparado: Fui buscar um pedaço, apesar de não sentir fome. Quando voltei, minha inspiração já se havia acabado; fiquei com tanta raiva que rasguei o papel em pedacinhos e bati com a cabeça na parede durante uns cinco minutos. Depois disso, já pensei algumas vezes em recomeçar a obra, mas estou me sentindo tão bem aqui, fazendo nada... Além disso, literatura não dá dinheiro.

Por Igor, 09:32 PM | Comentários (2)

abril 19, 2005

Benedito XVI

Parabéns, e que Deus o ajude.

Por Igor, 01:50 PM | Comentários (3)

abril 18, 2005

Redenção

Imagine como se sente um mendigo, ou assemelhado, após passar seis meses sem tomar banho, sem cortar as unhas, limpar o nariz ou os ouvidos; acumulando fuligem e suor na pele e nas roupas. Em algum momento ele estivera limpo pela última vez; e não imaginava o quanto estava limpo, pois aquela limpeza era o comum de sua vida. Depois disso, e desde então, toda sujeira - da primeira partícula de poeira que pousou em sua roupa até a última gota de chorume que empapou sua blusa - vem se acumulando sobre ele, de tal forma que a própria imundície parece tão antiga quanto o imundo, e tão inerente a ele que mal podemos imaginá-lo limpo.

Imagine então que este corpo no auge da porcaria é lavado, barbeado, recebe curativos nas feridas, roupas novas e um lugar limpo para dormir.

Por último, imagine que este corpo é a alma; neste caso, a limpeza descrita acima tem um nome: Redenção.

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Concebido no sábado último, apenas coincidentemente relacionado com este post.

Por Igor, 08:02 PM | Comentários (0)

abril 15, 2005

Milagres e erros

Não vejo muita diferença entre um milagre e um erro. É claro, um milagre é um tipo bom de erro; como quando seu salário vem com um zero a mais. Os mais honestos, já os ouço, dirão que isso não é justo. Concordo; cada um recebe o salário que merece, e se merecesse dez vezes mais, receberia dez vezes mais. Igualmente, um milagre não é dado por que o favorecido mereça, mas somente porque Deus é bom, e comete um bom erro. Além disso, seu cofre nunca esvazia.
Um milagre é um erro de continuidade. Segundos atrás, estes tonéis estavam cheios de água; agora estão cheios de vinho. Segundos atrás, tudo que havia para se comer eram alguns poucos pães e peixes; agora temos milhares de pessoas comendo, e a comida não acaba. Segundos atrás, este homem estava morto; agora, este Deus está vivo.
Para crer no cristianismo, é necessário crer que as coisas podem acontecer de maneira errada. Não é porque a bananeira sempre deu bananas que ela sempre dará bananas; se é possível imaginar a bananeira carregada de distintivos policiais, é possível que isso venha a acontecer. Aqueles mais positivistas logo viriam dizer, usando sua linguagem científica, que a bananeira cometera um erro. Um narrador em um contode fadas diria que a bananeira estava encantada.
E um cristão diria que foi um milagre. São apenas nomes diferentes para o mesmo fato; mas a escolha entre estes nomes revela o quanto você conhece, e o quanto você ama o autor e o motivo do erro, da mágica ou do milagre.

Por Igor, 07:01 AM | Comentários (3)

abril 14, 2005

Here I'm Alive

Everything all of the time.

Por Igor, 10:17 PM | Comentários (0)

abril 13, 2005

Entrando

E aqui estamos.

Por Igor, 06:14 PM | Comentários (0)