Naïf Gendarme

6 06UTC janeiro 06UTC 2010

Somente um olhar

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 13:13

Hoje vamos estudar o profundo paralelismo entre as obras de Dante Alighieri e Claudinho e Buchecha. Como todos sabemos, a obra máxima da dupla carioca é uma belíssima canção chamada “Nosso Sonho”:

Gatinha, quero te encontrar, vou falar, sou Claudinho
Menina Musa do Verão, você conquistou o meu coração, to vidrado, hoje eu sou, um Buchecha apaixonado.

Bem inseridos na tradição poética ocidental, a apresentação do bardo, que pede a atenção dos ouvintes (vou falaaaar….) e a invocação à musa,  Claudinho e Buchecha não buscam um vanguardismo de aparências. As rimas são diretas e abundantes, o ritmo bem modulado, tudo isso nos coloca a certeza: Estamos diante de verdadeiros poetas.

Naquele lugar, naquele local, era lindo o seu olhar
Eu te avistei, foi fenomenal, Houve uma chance de falar
Gostei de você, quero te alcançar, Tem um ímã que fez o meu hospedar
Nossas emoções, eram ilícitas, que apesar das vibrações
Proibia o amor, em nossos corações.

Rimas e assonâncias internas (local / fenomenal, avistei/gostei/você), um enjambement sofisticado (tem um imã que fez o meu hospedar nossas emoções), cadências muito bem construídas. Tecnicamente, temos uma estrofe admirável.

No entanto, críticos menos preparados e preconceituosos não conseguem penetrar fundo na poética de C&B. Apressados, correm a declarar que construções como …Tem um ímã que fez o meu hospedar Nossas emoções, eram ilícitas, que apesar das vibrações… não fazem sentido. São as mesmas pessoas que não sabem que “adjudicar” significa “autorizar, permitir” e que portanto, não o compreendendo, julgam esta uma obra inferior. Mas chegaremos logo a esta parte.

A beleza da construção mencionada é fulgurante, quando encontrada. Os poetas, sem intenções vanguardistas, se saíram com uma solução que exige, do leitor, a atitude de amor e atenção para cm o poema, sem a qual é escusado que a leia. Um poema sobre o amor que se eleva das coisas terrenas não pode dispensar o mesmo amor – a mesma impulsão para o alto – na hora de ser lido. Quem o lê com os olhos baços daquele preconceito que nasce dos vários ódios que nos enchem as horas jamais encontrará a vivíssima poesia que mora naqueles versos.

Mas divago! Diga, então, o leitor por si mesmo:

Tem um ímã que fez o meu hospedar Nossas emoções. Nossas emoções eram ilícitas, (o) que apesar das vibrações….

O que temos aí? Um ímã, atrator, que faz outro hospedar emoções. Mas não quaisquer emoções, se não as do poeta e de sua amada. O ímã possui dois polos. Os polos opostos se atraem; já os polos equivalentes se repelem. ´

Lembremos, aqui, que Dante se referia a Beatrice como sua “beatificadora”, isto é, aquela de quem provêm sua beatitude. Se a beatitude de Dante vinha de Beatrice, é porque ele não a possuia em si; um fluxo muito semelhante ao eletromagnético, o que justifica a decisão do nosso poeta de utilizar um imã como objeto.

A física moderna já investigou as relações entre o eletromagnetismo, a energia atômica, a força gravitacional, a mecânica dos corpos celestes e outras beatitudes encontradas em nosso universo; mas continuam as buscas por teorias, resultados e indicadores que conduzam a uma ciência de tudo, uma teoria universal que concilie todos os conhecimentos num universo teórico que funcione – tanto quanto o universo físico, de fato, funciona. Dante cristalizou, num verso famoso, a base filosófica desta ciência de tudo: A Divina Comédia termina com uma menção ao “Amor que move o sol e as outras estrelas“. Sim, que move o sol, as estrelas e faz com que os polos opostos dos ímãs se atraiam mutuamente.

Digno de nota é também o recurso estilístico que une as duas frases. As emoções, hospedadas pelo imã na primeira oração, tornam-se sujeito da próxima. No entanto, não se canta duas vezes nossas emoções, o que simboliza a união entre poeta e amada. Através de suas emoções, o poeta e sua amada se unem; através de sua expressão em palavras, o poema une a atração e sua ilicitude. E por falar em ilicitude…

Ziguezaguiei no vira, virou, você quis me dar as mãos, não alcançou
Bem que eu tentei, algo atrapalhou a distância não deixou
Foi com muita fé, nessa ilustração,que eu não dei bola para a ilusão.
Homem e mulher, vira em inversão bate forte o coração

Aqui, temos uma referência clara às dificuldades passadas por Dante durante o período em que, graças ao seu malfadado envolvimento com a politica florentina, passou por dificuldades e perseguições e finalmente o exílio – ziguezagueou no viravirou, virou em inversão. Na vida pessoal, infelizmente, o poeta não foi capaz de voar quando lhe tiraram o chão.

Tumultuado o palco quase caiu
Eu desditoso, e você se distraiu
Quando estendi as mãos, pra poder te segurar
Já arranhado e toda hora vinha uma
A impressão que o palco era de espuma
Você tentou chegar, não deu pra me tocar

Nesta estrofe, Claudinho e Buchecha emulam, magistralmente, as emoções do auge da luta política de Dante, a instabilidade social de seu lugar e tempo (palco de espuma) culminando com seu afastamento de sua cidade e de Beatrice, já morta quando de seu exílio, mas presente simbolicamente em Florença.

Nosso sonho não vai terminar
Desse jeito que você faz
Se o destino adjudicar esse amor poderá ser capaz, gatinha
Nosso sonho não vai terminar
Desse jeito que você faz
E depois que o baile acabar, vamos nos encontrar logo mais

O sonho que não termina: Como lemos na Vita Nuova, Dante soube, desde quem em Beatrice os olhos pousou, que não deixaria de amá-la, durante toda a eternidade. E no entanto, não o vemos tentar nenhum passo prático que o pusesse mais perto de sua amada. Ele permite, sem mais, que “o destino adjudique“.  E o que é toda a Comédia senão um baile que, acabado, permite a Dante e Beatrice se encontrarem “logo mais“?

Na Praça da Play-Boy, ou em Niterói.
Na fazenda Chumbada ou no Coez.
Quitungo, Guaporé nos locais do Jacaré.
Taquara, Furna e Faz-quem-quer.
Barata, Cidade de Deus, Borel e a Gambá.
Marechal, Urucânia, Irajá.
Cosmorana, Guadalupe, Sangue-areia e Pombal
Vigário Geral, Rocinha e Vidigal
Coronel, mutuapira, Itaguaí e Sacy.
Andaraí, Iriri, Salgueiro, Catirí
Engenho novo, Gramacho, Méier, Inhaúma, Arará.
Vila Aliança, Mineira, Mangueira e a Vintém.
Na Posse e Madureira, Nilópolis, Xerém.
Ou em qualquer lugar, eu vou te admirar.

Aqui temos uma analogia com os sete círculos do inferno, que um crítico especializado poderia deslindar, com um generoso conhecimento de sociogeografia carioca. No entanto, a intuição nos mostra que assim é, mesmo que não detalhemos o porquê. Aos ávidos por provas, basta-me, no momento, mencionar duas coisas.

Uma é a melodia do trecho. Ouça atentamente e perceba como a canção vai ficando mais alegre; precisamente, quando Buchecha canta “Coronel, mutuapira, Itaguaí, Sacy”. Isto serve para simbolizar a proximidade do paraíso. Repare também que a primeira palavra aí cantada é Coronel: Símbolo da hierarquia militar, e portanto, da ordem, fortemente constrastando com os vários nomes de origem indígena que representam a anarquia em que viviam os povos nativos do Brasil antes da colonização portuguesa, e por extensão, do inferno, reino da desordem.

A segunda é mais simples. Repare que a última localidade mencionada é Xerém. Aos que não conhecem, Xerém é um distrito de Duque de Caxias já praticamente chegando em Petrópolis, que é uma cidade serrana. Lembre, agora, que o Purgatório ficava numa montanha! É uma perfeita menção à obra de Dante que praticamente não se percebe entre as rimas da estrofe.

Os teus cabelos cobriam os lábios teus
Não permitindo encontrar os meus
E você é baixinha, gatinha eu vou parar
Mas tudo isso porque eu me sinto coroão
Tu tens apenas metade da minha ilusão
Seus doze aninhos permitem somente um olhar

Descrevendo um encontro com sua Beatrice funkeira, o poeta cria um momento de grande beleza, digno do cânon ocidental. Primeiro: A estrofe tanto se aplica ao encontro de Dante com Beatrice no céu quanto aos dois que tiveram na terra, durante a vida de Beatrice. Não há nada que determine o local onde os cabelos da amada encobrem seus lábios, os impedindo de encontrar os do poeta.

Veja-se, também, que o poeta menciona que a amada “tem apenas metade da minha ilusão”, isto é, metade de seu tempo  nesta terra. Agora, abra o leitor sua edição da “Vita Nuova” e veja se não é isso que Dante diz. Através de complexos indicadores astrológicos, Dante nos diz ter ele dezoito e Beatrice nove anos quando pela primeira vez se avistaram.

O último verso foi alvo de maiores críticas. No entanto, é uma chave perfeita para o poema. Em primeiro lugar, o poeta ter errado ao trocar “nove” por “doze aninhos” é perdoável, em tempos como os nossos, nos quais não mais se ensinam o latim e a astrologia clássica nas escolas. Mas sempre resta a possibilidade de que Beatrice tenha morrido com doze anos! Negar isso é negar a possibilidade de uma liberdade poética. Recusar o verso por causa da dúvida é recusar a poesia do que não se pode saber, se não por um vislumbre.

E é, também ao afirmar que a tenra idade de sua amada permite “somente um olhar“, que Claudinho & Buchecha afirmam a superioridade de sua poesia. Como sabemos, o próprio Dante ensina, no capítulo X de “Il Convito”, que entre as três coisas a que o amor move o amante, está a defesa da coisa amada. E amar uma jovem, ainda não preparada para o amor conjugal, significa defendê-la; defendê-la de tudo, inclusive de que o poeta, esquecido dao suprema dignidade do amor, queira extrair de sua amada mais do que somente um olhar.

5 Comentários »

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by ductilissimo, igorbarbosa. igorbarbosa said: Funk Alighieri http://igorbarbosa.apostos.com/2010/01/06/somente-um-olhar/ [...]

    Pingback por Tweets that mention Somente um olhar « Naïf Gendarme -- Topsy.com — 6 06UTC janeiro 06UTC 2010 @ 13:44

  2. Posto isso, o que há para ser dito?
    Parabéns!

    Comentário por ouch — 7 07UTC janeiro 07UTC 2010 @ 7:32

  3. Um olhar naïf de C&B – reflexão

    O post (maravilhoso, bem embasado – por sinal) me impressinou muito. Porém, um pulga teima em ficar atrás da orelha. Tem uma irônia tênue entre as palavras e conclusões? As rimas são sim, paupérrimas, ingênuas e com uma linguaguem popular mesclada com “licenças poéticas” funkeiras totalmente nonsense. OK. Hit da década de 90, a dupla foi representante de um funk – o chamado das “antigas”/ “velha guarda” – que a temática central era amor, diversão e amizade. Paralelamente, outros começaram uma levada mais “política” na linha “Eu sou quero é ser feliz”, “Rap do Silva”, que aliás esse trecho merece atenção especial:

    “O funk não é modismo
    É uma necessidade
    É pra calar os gemidos que existem nessa cidade”

    Sem coincidência alguma, os bailes – foram proibidos em todos os cantos da cidade. As vozes e corpos de calaram. Voilá, anos mais tarde na segunda fase do funk vieram as mensagens vazias, os leões, os tigrões, as popozudas. Os bailes estavam de volta. Hj uma ode a violência, a pornografia. E colocaram o funk no lugar de onde nunca devia ter saído. Para alguns: da margem, junto com os marginalizados. E em seus microfones, temáticas (sexo, pseudopornografia, sexo) que só ajudam os defensores de que o funk não é música (controverso. O trance é?) e nem expressão cultural.

    Claudinho e Buchecha tem sua expressão dentro de uma década, onde o “pretos e favelados” foram parar no horário nobre da TV. Ai sabe, deixa o ímã se hospedar, como um bom e velho das antigas. E viva a dupla ícone da velha guarda (irônico) dentro do microcosmos carioca. Um samba naïf de rimas “tolas” e simplistas do mestre que foi ironizado – no começo da carreira – pela elite intelectualizada que tinha um olhar pra lá, de torto. De novo. Adorei o post recomendei em todas minhas redes sociais e retoma uma discussão bacana sobre o tema. aff, desabafei. E – particularmente – tenho um carinho especial com essa música que é juvenil, e me remete aos não tão distantes, porém áureos momentos da minha adolescencia embalada por VHs, fita cassetes, CDs de Cartola a Claudinho e Buchecha. Lindamente regravados por Adriana Calcanhoto e outros. Já ouviu a versão de Rap do Silva por Las Chicas?
    Vale: http://www.youtube.com/watch?v=oSFQW9R3enM

    abraço

    Verde Que Te Quero Rosa

    (Dalmo Castelo E Cartola)
    Verde como céu azul a esperança
    Branco como a cor da Paz ao se encontrar
    Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
    É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
    É negra toda tristeza desta vida

    É branco o sorriso das crianças
    São verdes, os campos, as matas
    E o corpo das mulatas quando vestem Verde e rosa, é
    Mangueira
    É verde o mar que me banha a vida inteira

    Verde como céu azul a esperança
    Branco como a cor da Paz ao se encontrar
    Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
    É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
    É negra toda tristeza desta vida

    É branco o sorriso das crianças
    São verdes, os campos, as matas
    E o corpo das mulatas quando vestem Verde e rosa, é a
    Mangueira
    É verde o mar que me banha a vida inteira

    Verde como céu azul a esperança
    Branco como a cor da Paz ao se encontrar
    Rubro como o rosto fica junto a rosa mais querida
    É negra toda tristeza se há despedida na Avenida
    É negra toda tristeza desta vida

    Verde que te quero Rosa (é a Mangueira)
    Rosa que te quero Verde (é a Mangueira)
    Verde que te quero Rosa (é a Mangueira)
    Rosa que te quero Verde (é a Mangueira)

    Comentário por Ju Ribeiro — 7 07UTC janeiro 07UTC 2010 @ 11:51

  4. Ju,

    Primeiro, obrigado pelo comentário. Fico feliz que tenha gostado do texto. Bem, você me pergunta se há uma ironia, e para ser sincero, tenho que dizer que não sei – o que provavelmente quer dizer não. Não me surpreenderia se, não sendo eu, Buchecha viesse a público dizendo o mesmo que eu disse. Nosso Sonho inspirada por Dante Alighieri = Yes we can.

    Suas colocações sobre o papel do funk na cultura carioca são muito pertinentes. Acho importante que não se deixe de ter sensibilidade à música popular. Eu pessoalmente sou muito desafeito a pretensões e afetações, então… Não sei como concluir, exceto dizendo de novo que gostei muito de ter recebido este seu comentário. Volte sempre.

    Um abraço,

    Igor

    Comentário por Igor Barbosa — 7 07UTC janeiro 07UTC 2010 @ 14:34

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