Você pode me achar um perfeito, completo, fornidíssimo idiota. Isso não lhe decresce nem um centímetro. Você pode dizer que meu Deus humilhado, crucificado numa cidade asiática, de ossos contados, não é muito diferente de um monstro voador de espaguete. Você pode armar um circo ou, no picadeiro, dizer que eu e alguns de meus amigos somos a visão do inferno.
Você pode fazer tudo isso e mais várias coisas. Você só não conseguirá me impedir de pensar: “Tomara que o céu seja muito grande”. Pensar, não: Rezar, que é atividade permitida pela Santa Madre Igreja e acessível a um sujeito que se cerca de direitistas. Tomara que seja grande, e tomara que a camaradagem do porteiro seja maior que sua justiça.
Porque eu sei que não mereço ir pra lá. E você pode fazer tudo aquilo que descrevi no primeiro parágrafo ou pode agir totalmente ao contrário. Mas de modo nenhum você vai conseguir merecer estar no céu; porque simplesmente, ir pro céu significa receber de Deus uma graça final, suprema e inesgotável em palavas: A vida eterna e plena, que somos incapazes de merecer por natureza, mas à qual somos chamados desde o nascimento de nossas almas.
Há pouco, eu percebi que havia estabelecido uma relação curiosa com Deus. Constantemente, eu me armava em credor da Divindade e estabelecia metas e prazos para meu Criador. E já quase me considerava a salvo do inferno, independente de o quanto ou quão gravemente pecasse.
É óbvio que isso já era um pecado dos mais piores. Mas o que me assustou foi a possibilidade de que, na verdade, não tenha sido algo que passou, e eu percebi – mas algo que eu notei ter existido no passado, mas que continua existindo no presente e eu não vejo.
O Pedro Sette Câmara escreveu aqui sobre a sensibilidade atual aos presentes desagradáveis, ou no mínimo não desejados, e conta sobre um presente que, desembrulhado apenas, pareceu inadequado a quem o ganhou; mas que acabou tendo um impacto enorme sobre a sua vida.
E hoje eu estava assistindo um documentário sobre uma doença de pele que causa um enorme sofrimento e leva suas vítimas à morte prematura. Minha esposa se encarregou do comentário inevitável que só fazemos muito poucas vezes: Temos que dar graças a Deus pela saúde do nosso filho e nossa…
E eu concordei, claro. Ela estava jogando e eu não queria desconcentrá-la.
Mas o que justificaria àqueles doentes não dar graças a Deus? Não estavam vivos? Não eram capazes de lutar contra um sofrimento real e seguir suas vidas, sob a ameaça real de uma morte provavelmente próxima? E isso não fazia deles pessoas superiores a quase todas as outras em algum aspecto – pessoas com uma história que ninguém mais tem?
Essa sua maneira de chamar ao meu Deus de “Monstro de espaguete” – não é isso, entre outras coisas, que faz de você uma pessoa diferente de todas as outras? Não é assim que, um dia, o monstro de espaguete vai reconhecer sua alma entre todas as outras?
E se o monstro de espaguete não existir – ainda assim, eu sei que não mereço o que ele não me deu, mas que de alguma forma eu vim a ter. Ainda assim, inexplicavelmente, tudo está bom demais – tudo, como direi? muito imerecido. E tudo muito imerecidamente melhorando.
And even though it all goes wrong, I´ll stand before the Lord of Song with nothing on my tongue but Hallelujah.

Bom demais pra ficar sem nenhum comentário, Igor.
Comentário por Alexandre SS — 6 06UTC janeiro 06UTC 2010 @ 22:08