Naïf Gendarme

27 27UTC julho 27UTC 2009

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 13:33

Topei nem sei mais há quantos meses num sebo com dois livros que comprei porque não comprar seria idiota, cada um por 2 reais: “O Jovem José” e “José, o Provedor”, metade da tetralogia sobre o patriarca José, de Thomas Mann. Faltam-me o primeiro e terceiro volumes da narrativa, e resisto a comprar a edição atualmente publicada, já que a minha é bem antiga e o tradutor diferente.

Há muito tempo eu não sentia o que senti lendo estes dois livros: Uma vontade aparentemente insaciável de ler mais, outros livros do mesmo autor, com o mesmo tema, a ponto de estar prestes a, seguindo uma sugestão do John Santos, comprar um livro chamado “The son of Laughter” sobre Yitzhak, avô de José. Isaque, aliás, ou Isaac, merece um parêntese: O filho da risada é o menos alegre, o menos orientalmente exuberante dos patriarcas clássicos. Neste livro, do Frederick Buechner, aparece este Isaac melancólico, calado, e quase suicida, e Deus por vezes é chamado de “The Fear” – designação bem apropriada para um Deus que andara quase sumido desde muitas gerações, desde séculos de paganismo e de culto a Baals, Istares e Adonais, e que voltava a aparecer, timidamente: Na boca de Enós, na companhia de Noé, na amizade de Abraão e no terror de Isaac.

Após a amizade de Abraão e o medo de Isaac, chegamos ao vencido de Jacó: Deus começa a se mostrar vencido, submetido, obrigado a uma bênção que não se pode apagar – e que não irá apagar: A descendência dos patriarcas, numerosa a não se poder contar, permanece abençoada eternamente. E o maior deles, segundo o instalador da nova e eterna aliança, viu o seu dia e alegrou-se.

Os filhos daquele que manteve Deus submetido por uma madrugada, e cobrou a bênção, atraindo o favor do Altíssimo sobre a humanidade, ou sobre uma fração que seria, por séculos, a quintessência da humanidade – a bênção que custou uma coxa, um coxear – seus filhos já seriam mostra do novo favor de Deus. E em José, temos a escrita máxima de Deus, a mão que escreve nas paredes do palácio do tempo o que quer, como quer e quando quer. A escolha humana, a direção óbvia, são coisas que para Deus podem ser alegremente desprezadas. E a primogenitura e sua bênção vai para onde decide o grande decididor.

Os personagens de José e seus Irmãos, quase sempre, não são os mesmos da Bíblia. Mas são (here´s the commonplace) maravilhosamente bem construídos, e por vezes magníficos; como quando, recebendo as vestes de José manchadas de sangue e julgando que “certamente uma fera dos campos o despedaçou, um leão o matou: Chorando descerei à tumba, e me ajuntarei ao meu filho, pois José já não existe mais”; Jacó entra em luto. Deixo um trecho:

“- Aí está o que é Deus! – repetiu com visível calafrio. – O Senhor não me perguntou, Eliezer, e não me ordenou como prova: “Traze-me cá o filho que mais amas!” Talvez eu fosse mais forte do que humildemente esperava e levasse o menino a Morija, não obstante a sua pergunta sobre o animal a ser imolado. Talvez eu pudesse ouvir tudo isso sem cair desfalecido, talvez pudesse erguer o cutelo sobre Isaac, fiado no carneiro. Seria uma prova. Mas não foi o que se deu, Eliezer. (…) Ora, deves saber que esta fera (leão) devora tudo e o devorou. Levou ainda para o covil um pouco de José para as suas crias. É concebível tudo isto? Pode-se aceitá-lo? Não, é impossível tragá-lo. Eu o cuspi para fora como os pássaros a penugem. E agora jaz aqui. Agora Deus faça disso o que quiser, que não é coisa para mim.

- Volta a ti, Israel!

- Não, não, eu perdi os sentidos, ó meu mordomo. Foi Deus que mos tirou, e agora escute ele as minhas palavras! Ele é meu criador, eu o sei. Mungiu-me como leite e fez-me coalhar como queijo, convenho. Mas que seria dele e onde estaria sem nós, sem meus pais e sem mim? Terá ele memória fraca? Esqueceu o tormento e a fadiga do homem por seu amor? Esqueceu como Abraão o descobriu e excogitou, tanto que ele pôde beijar os dedos e exclamar: “Finalmente me chamam de Senhor e Sumo”? Eu pergunto: Terá ele esquecido a aliança (..)? Onde está a minha transgressão, onde meu delito? Que mo mostre! Queimei incenso aos Baal da região (…)? (…) Eliezer, a aliança está violada! (…) Deus não andou a passo igual: entendes-me bem? Deus e o homem se escolheram reciprocamente e concluíram a aliança, a fim de que fossem retos um no outro e santos um no outro. Mas se o homem se tornou delicado e fino em Deus e de alma disciplinada e se Deus, ao contrário, lhe impõe uma coisa selvagemente horrível que ele não pode aceitar mas tem de cuspir fora e dizer: “Isto não é coisa para mim”, então é claro, Eliezer, que Deus não andou a passo igual na santificação, mas ficou atrás e é ainda um bárbaro.”

É claro que aqui o mordomo inicia uma defesa de Deus, e não lhe falta a lembrança de apelar ao Behemoth, como o próprio réu fará mais além, se não mais tarde, frente ao seu auto-proclamado juiz Jó. Esta defesa de Deus é cabível, e a justiça o pede, mas não a digito; primeiro porque já o faz a própria história de Jacó, que ainda haveria de encontrar José no Egito, primeiro abaixo do Faraó, e depois porque nada mais fizeram os anjos e santos que cantaram, e até hoje cantam “Santo, Santo, Santo, é o Senhor, Deus dos exércitos; os céus e a terra estão repletos de sua Glória”.

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