Naïf Gendarme

5 05UTC maio 05UTC 2009

Queijo

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 15:46

por G.K. Chesterton, publicado em `Alarms and Discursions’ (1910) – trad. Igor Barbosa

Minha próxima obra em cinco volumes, “O Desprezo do Queijo pela Literatura Européia”, é um trabalho tão imprecedente e laboriosamente detalhado que é de duvidar que eu consiga viver para concluí-lo. Podemos permitir, portanto, que algumas inundações de uma tal fonte de informação salpiquem estas páginas. Não posso ainda explicar completamente o desprezo a que me refiro. Poetas têm se calado misteriosamente sobre o tema do queijo. Virgílio, se bem me lembro, refere-se a ele várias vezes, mas com grande reprovação dos Romanos. Ele não se atira ao queijo. O único outro poeta, que eu me lembre agora, que parece ter tido alguma sensibilidade quanto a este tópico foi o autor anônimo dos versos que dizem “Se todas as árvores fossem pão com queijo” – o que é de fato uma visão rica e gigantesca da mais elevada glutonia. Se todas as árvores fossem pão com queijo haveria um considerável desmatamento em qualquer região da Inglaterra em que eu vivesse. Ferozes e fartas florestas escapariam de mim, tão rápido quanto outrora correram por causa de Orfeu. Exceto Virgílio e este poeta anônimo, não consigo me lembrar de nenhum outro poema sobre queijo. No entanto, tudo que se requer para a melhor poesia está lá. É uma palavra curta e forte; rima com “desejo” e “beijo” (um ponto essencial); e até as civilizações modernas concordam que tem uma sonoridade enfática. A própria substância é imaginativa. É antiga – às vezes no que se refere à unidade em questão, mas sempre quanto ao tipo e forma. É simples, sendo diretamente derivado do leite, que é uma das bebidas ancestrais, não facilmente corruptível com água gaseificada. Veja bem, eu espero que seja verdade (apesar de que foi só agora que pensei nisso) que os quatro rios do Éden eram leite, água, vinho e cerveja. Águas com gás somente vieram após a queda.

Mas o queijo tem outra qualidade, que é também a verdadeira alma do canto. Uma vez, batalhando para palestrar em vários lugares de uma vez, eu fiz uma excêntrica jornada através da Inglaterra, uma jornada de desenho tão irregular e mesmo ilógico que foi necessário que eu almoçasse por quatro dias seguidos em quatro tabernas de beira de estrada em quatro províncias diferentes. Em cada taberna só havia pão com queijo; e eu também não consigo imaginar porque alguém quereria mais que pão e queijo, se pudesse chegar a se fartar disso. Havia um nobre queijo wensleydale em Yorkshire, um queijo de Cheshire em Cheshire, e daí em diante. Ora, é exatamente neste ponto que a real e poética civilização difere desta civilização pobre e mecânica que nos escraviza. Maus hábitos são universais e rígidos, como o militarismo moderno. Bons costumes são universais e variados, como a cavalaria e a defesa de si mesmo. Tanto a boa quanto a má civilização nos cobrem como um teto, e nos protegem de tudo que está fora. Mas uma boa civilização se espalha sobre nós livre como uma árvore, variante e anárquica, porque vive. Uma civilização ruim se ergue e estica como um guarda-chuva – artificial, matemática no formato; uniforme, quando podia ser simplesmente universal. Assim é com o contraste entre as substâncias que variam e as que são as mesmas onde quer que se as encontre. Por um sábio imperativo celeste os homens foram levados a comer queijo, mas não o mesmo queijo. Por ser realmente universal, muda entre um vale e outro. Mas se compararmos, por exemplo, queijo com sabão (esta substância muitíssimo inferior), veremos que o sabão tende sempre a ser meramente sabão violeta ou sabão alfazema, remetidos logisticamente a todos os cantos do mundo. Se os peles-vermelhas usam sabão, é sabão violeta. Se o Dalai Lama usa sabão, é sabão alfazema. Não há nada sutilmente e misteriosamente budista, nada ternamente tibetano, no sabão dele. Eu suponho que o Dalai Lama não come queijo (ele não é digno de comê-lo), mas se comer é provavelmente um queijo local, com alguma relação real com sua vida e circunstâncias. Palitos de fósforo, comida enlatada, remédios pateteados são enviados ao mundo todo; mas não são produzidos no mundo todo. Portanto o que existe entre um tipo e outro destes produtos é uma mera identidade sem vida, nunca aquela quase invisível brincadeira das coisas que em todo canto são tiradas do solo, do leite no curral ou das frutas no pomar. Consegue-se um whisky com soda em todos os postos avançados do Império; por isso tantos imperialistas ficam loucos. Mas isso não é provar ou tocar um local, como na cidra de Devonshire ou nas uvas do Reno; isso não é se achegar a uma das nuances da miríade de cores que possui a Natureza, como no ato sagrado de comer queijo.

Quando eu fiz minha romaria pelas quatro tabernas de beira de estrada eu acabei indo a uma das grandes cidades do norte, e lá eu corri, veloz e inconsistentemente, para um restaurante grande e complicado, onde eu sabia que poderia comer muitas coisas além de pão com queijo. Eu podia comer isso também, aliás, ou pelo menos queria comer isso; mas fui secamente lembrado de que havia entrado em Babilônia, e deixado a Inglaterra para trás. O garçom me trouxe queijo, de fato, mas cortado em pedacinhos calculados; e o fato terrível é que em vez de um pão cristão, ele me trouxe biscoitos. Biscoitos – para quem tinha comido o queijo de quatro ótimas províncias! Biscoitos – para quem havia constatado novamente a santidade do antigo matrimônio entre o queijo e o pão! Eu me dirigi ao garçom em termos cálidos e sentimentais. Eu o perguntei quem ele era para separar o que o gênero humano uniu. Eu o perguntei se não sentia, como um artista, que uma substância firme mas maleável como o queijo combinava com uma substância firme e maleável, como o pão; comê-lo com biscoitos é como comê-lo com azulejos. Eu o perguntei se, ao rezar, ele era tão sardônico a ponto de pedir o biscoito nosso de cada dia. Ele me deu a entender, genericamente, que apenas obedecia um costume da Sociedade Moderna. Neste ponto eu decidi erguer a voz, não contra o garçom, mas contra a Sociedade Moderna, por este enorme e incomparável erro moderno.

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