Nas aulas de física, ouvindo falar nos muitos e escabrosos fenômenos do céu posterior, no apetite infinito dos buracos negros, no inchaço que fatalmente acometerá nosso sol – e ele virá torrando Mercúrio e Vênus, engolindo a Terra, em sua ânsia por mais espaço, qual um viajante de classe econômica – estudando todas estas enormidades, nunca me assombrei. Sempre achei natural que as coisas grandes ficassem cada vez maiores, e as coisas quentes cada vez mais quentes. O que me impressionava não era que os astros pudessem fazê-lo; o que me impressionava e ainda impressiona é que não o façam.
Pois há um contrasenso num universo que nasce de uma explosão, mas mesmo assim seus corpos não encontram espaço e precisam se atropelar mutuamente, numa disputa de hockey cósmico tão perigosa quanto desajeitada. Um universo que se tornou enorme numa fração de segundos não possui espaço para que asteróides circulem à vontade, sem ameaçar nosso frágil planeta. Isso é um contrasenso, mas não é o contrasenso que me impressiona. É perfeitamente possível que haja abundância de espaço, sem que haja espaço sobrando para duas entidades… O que ainda me deixa abismado é outra coisa.
O que me comove é que estamos envolvidos num negócio perigosíssimo; aparentemente o sol pode nos lamber a qualquer momento, um asteróide pode querer tomar um banho de mar em um de nossos oceanos, um buraco negro pode dar um jeito de nos chupar, galáxia e tudo, para uma não-existência cremosa. E ainda assim, nada disso acontece: Alguma maravilha mantêm as estrelas afastadas, como no poema do ee cummings. Esta maravilha eu chamo de Amor. Essa mesma maravilha, segundo Dante, move o sol e as outras estrelas; e aqui esgoto a ciência, pois não há fenômeno natural; alguém afasta as estrelas fazendo-as andar. A ordem em nosso universo consiste em um movimento, o mesmo movimento que faz cientistas darem pulos de pânico, satisfação ou ambas as coisas quando um asteróide nos olha de soslaio…
Eis o maior segredo que ninguém conhece (eis a raiz da raiz e o caule do caule e o céu do céu de uma árvore chamada vida; que cresce mais alto que a alma pode esperar ou a mente esconder); e esta é a maravilha que tem mantido as estrelas afastadas.
