O problema talvez seja a pressa. Muitas coisas me tem acontecido antes do tempo regulamentar, o que para mim é apenas a prova de que não existe tempo regulamentar. O tempo é um truque, não a regra; o tempo é uma rasteira.Com certeza diagnósticos de problemas são problemas. Problemas precisam de terapia, não de descrições.
*Aos 16 anos, eu era um amálgama de marxista, socialista utópico e anarquista/straight edge. Não sei exatamente o que me atraía nessas doutrinas; talvez o fato de que o luxo alheio é incômodo. Disso se conclui, com algum lubrificante mental, que a propriedade é roubo. A Igreja nunca me ajudou nesse sentido; a pregação de justiça social me parecia mais utópica do que nesse tempo eu julgava que devia ser. Deus era um conceito confuso e mutável na minha cabeça. Terrorismo passou pela minha cabeça algumas vezes (mansões, zoológicos e rodeios).Então eu fui pra faculdade. Marxistas, Socialistas utópicos e Anarquistas / Straight Edges não são precisamente o que alguém chamaria de espécimes raros em um Instituto de Filosofia. Ninguém gosta de espelhos que só mostram seus defeitos; e esses espelhos mostravam muitos defeitos.Pouco tempo depois, conheci os blogs – lembro do roteiro: Da página inicial de um grande portal para uma coluna; desta coluna para o
Homem Chavão; daí para
Alexandre Soares Silva e de lá para o mundo. Criei meu primeiro blog, por assim dizer, em Janeiro de 2004; e já então era profundamente direitista. Sinistro, pausa, destro.
*É muito confortável estar na esquerda, dependendo de quem está por perto. É muito confortável estar na direita, dependendo de quem está por perto. Se são seus correligionários, os olhos aprendem a enxergar as qualidades e a não ver os defeitos. Se são seus oponentes, basta exagerar uma característica sua – inteligência, beleza, bondade – e eles parecerão muito piores que você. É muito simples. E tudo que é muito simples é agradável, mas não para a vida inteira.Em algum momento, eu avisei que não ia mais falar de política. O assunto me cansou, de verdade. Mas fiquei devendo os motivos desta decisão.A primeira coisa é que o assunto é cansativo e inútil. Não compreendo como algumas pessoas maduras, inteligentes e esclarecidas puderam tomar posição sobre coisas como a guerra no iraque – porque se eu for contra a guerra, isso me põe numa companhia indesejada, e faz parecer que Saddam não me incomoda; e se eu for a favor, faz parecer que eu gosto de guerras, gosto de civis mortos, cidades bombardeadas e crianças machucadas. Nenhuma das posições é adequada para mim.Na época eu me declarei algumas vezes a favor da guerra. Já me declarei liberal, em economia. Já me declarei a favor do estado mínimo. Caí naquele extremo oposto ao comunismo que cancela o ódio aos ricos, substituindo-o pelo ódio aos pobres; ódio que, ironicamente, parece ser o vício mesmo da esquerda brasileira, de atribuir todos os problemas sociais do país à pobreza de sua população.Mas há coisas que são evidentes – por cima, ou por baixo, das dicções pós-graduadas que discutem estes assuntos, estão os milhões de dólares que o governo dos EUA gastou invadindo um país no Oriente Médio, e os milhões de Iraquianos e Curdos que certamente não estavam
felizes durante o governo do Saddam; os milhões de dólares, euros e reais que movimentam a economia anualmente, e os milhões de pessoas que não participam desse mecanismo; os milhões de funcionários públicos inúteis e os milhões de pessoas que precisam de serviços públicos indisponíveis por falta de funcionários. Toda discussão política, econômica, sociológica e assemelhadas está baseada, cercada e coberta de contradição.Percebi, lentamente e com uma pequena ajuda de alguns amigos, que o liberalismo econômico comete o mesmo erro fundamental do comunismo: Atribuir ao tempo a solução dos problemas econômicos e sociais. Para usar a linguagem da última aposta, as pessoas sabem quais são os problemas, mas têm preguiça de resolvê-los; por isso apelam ao estado ou ao mercado para crer que a responsabilidade repousa em mãos maiores. O que não lembram é que o estado, o mercado, a igreja, as empresas, todas as associações de pessoas são, no princípio e no fim, associações de pessoas. O que as pessoas não fizerem os grupos não farão.A diferença básica entre o comunismo e o liberalismo se dá na análise que fazem da natureza humana; e ainda assim ambos erram. A natureza humana não se presta a análise, porque uma pessoa nunca pode ser vista de todos os ângulos em um único momento, por um único olho; e mesmo que pudesse, faltaria um cérebro humano capaz de, num único movimento mental, captar a mensagem completa. A natureza humana é um isca para os que se acham inteligentes. Posso evocar São Francisco de Assis para representá-la, assim como Stalin; posso falar da Capela Sistina ou da chacina na Candelária; e ainda assim estou falando de um ou dois polos da natureza mais multipolar que se pode imaginar.Por isso não quero mais me associar com quem só quer fazer cama-de-gato com idéias. Teoria política é um termo sádico; porque toda teoria se presta a tratar seu objeto elasticamente, mas as pessoas não são elásticas. Corações se quebram, todos os dias, por diferentes motivos.Também não quero me associar com quer fazer uma gritaria – denúncias não me atraem. As coisas estão óbvias, o tempo todo, e ocultas o tempo todo; porque as pessoas estão completamente expostas, ao mesmo tempo que se escondem num sacrário. Todas precisam de uma veste e de um guia que as tire do esconderijo, porque o mundo é para ser visto e experimentado; mas não é na natureza humana que encontrarão este guia, e não é o mundo que lhes dará esta roupa. Nós, cristãos, sabemos e intuimos que é uma pessoa; e pela vinda desta pessoa ansiamos e rezamos, sempre, sempre.