Desde o fim da minha infância, tive duas intuições contrárias e alternadas, que acredito serem as primeiras intuições de cada um que, deixando o convívio exclusivo da família, ingressa em outros grupos e conhece outras pessoas; eventos que poderiam ser tomados como definição de fim da infância, pois essas intuições são, respectivamente, um afastamento da atmosfera infantil por excelência, que aqui considero a confiança absoluta, e um aprofundamento do ser nesta atmosfera. Essas intuições me invadiram a alma como forças violentas contrárias; e sabe-se que forças contrárias atuando sobre um corpo geralmente conseguem pouco mais que a deformação ou a explosão deste corpo; se houver a terceira possibilidade de um deslocamento, este não será numa direção definida, mas aleatório e puramente inútil; e se o corpo for resistente o suficiente para resistir a estas forças, será também rígido o bastante para não se mover de forma alguma; e neste caso a imobilidade é sintoma de morte.
Estas duas intuições que se abateram sobre mim, neste dias em que com certeza eu não era resistente o suficiente para manter uma filosófica imobilidade, uma racional indecisão – e por isso dou graças a Deus – eram, portanto, uma sensação de fraternidade universal e uma outra contrária, de inimizade universal.
A primeira me arremessava a alma ao mundo, como extensão da minha casa, onde havia irmãos e irmãs e tias e primos aos milhões; onde todos eram amigos em potencial; onde tudo me esperava amorosamente para cuidar de meus interesses. Num mundo assim, eu poderia desconsiderar o muro de minha casa; onde eu estivesse, aí estaria o meu quintal, e onde houvesse uma pessoa, aí haveria um amigo.
A segunda me lembrava que a mão que dava o doce também o sabia tomar; e se para dar tinha um gesto, para o roubar tinha cem. Entrevia nos olhos de todos – não importando sua idade ou posição em relação a mim – uma perpétua ameaça. Os conselhos paternos, que tiveram o mérito de evitar-me grandes problemas, tiveram também a virtude de acentuar a diferença entre o mundo externo, onde todos eram lobos, e a casa, onde um amor decidido e ciumento unia a todos. O abismo entre o quintal e a calçada foi-se tornando mais e mais intransponível.
Claro, não passei toda minha infância em reclusão; havia o colégio, havia a igreja; havia até os outros meninos da rua. Mas no contato com todos fora de casa, um grande sinal de Cuidado! era sempre ativado em meu cérebro, de modo que se o desrespeitei alguma vez, sabia certamente o que estava fazendo – e teria de certa forma merecido qualquer conseqüência desagradável que se seguisse.
E foi justamente o convívio que, pouco a pouco, desmanchou a bicolor confusão de meu cérebro; porque no colégio, na igreja, na rua, em todo lugar onde houvesse gente alheia à casa, confiei em pessoas que me fizeram mal e desconfiei de pessoas que me fizeram bem (com um grande vice-versa).
Não foi senão há pouco tempo que concluí que não há abismos de amor e ódio; o amor está espalhado, e haverá amor onde quer que haja uma pessoa. Não poderia pensar diferente sobre um sentimento que é justamente uma das definições diretas de meu Deus.
E uma coisa curiosa que notei sobre o amor foi justamente que ele aparece com freqüência onde não o estamos procurando – no mendigo que, na padaria da esquina, me ofereceu a primazia no atendimento; no desconhecido que parou o carro para que eu atravessasse a rua com meu filho, minutos depois de outro motorista acelerar para que eu não atravessasse. As pessoas capazes de causar males, grandes ou pequenos, são também capazes de oferecer coisas boas. Em todos os casos – digo todos porque sei que no meu caso é assim – é uma questão de escolha. Sempre que por culpa minha algo ruim aconteceu, eu soube como poderia ter evitado aquilo. Porque eu não o fiz?
É esta pergunta que, podendo levar a muitos lugares, eu deixo aos olhos e à consciência do leitor, antes de a seguirmos através de seu caminho – Porque não o fizemos?
