Enquanto isso, meu stumble.
31 31UTC agosto 31UTC 2005
23 23UTC agosto 23UTC 2005
Jeannie é um gênio; Gurinder Chada não
Se uma garota é amaldiçoada 200 anos antes de Cristo, como ela podia ser muçulmana?
16 16UTC agosto 16UTC 2005
Voavam dentes-de-leão. As estudantes de enfermagem passavam por ele, que passava por elas. Uma tinha cheiro de hospital. Ele se sentiu ofendido com aquilo tudo.
Outra era gorda e branca, não de uma brancura rósea ou pálida, mas amarela (um branco amarelo, bege). Cor de camisa promocional envelhecida. Cheiro de nada. Tamanho de passar sob seu braço, se o levantasse; pensava nisso quando da bolsa dela caiu uma carteira. Ele pegou e foi atrás, ela continuou andando até a mão pesada tocar-lhe os ombros:
-Aah!-Calma. Você deixou cair isto, – estendendo a carteira, a frase ainda no meio; ela recebeu interrompendo:-Obrigada – ofegante.
Ele foi pro canto da calçada, ela foi embora com passos curtos e mais velozes. Suspirando, reprovava-se pela timidez, sonhando com o próximo encontro, quando um caminhão a destroçou no cruzamento que pisara sem notar. Ele estava olhando para o outro lado.
No dia seguinte, decreto municipal proibiu o tráfego de veículos pesados naquela avenida.
10 10UTC agosto 10UTC 2005
Vontade de assobiar
Estava preparando esse texto – com o shift apertado para digitar a primeira letra da frase, maiúscula – e, enquanto pensava sobre o que escrever, o windows me disse que manter a tecla apertada por cinco segundos habilita uma função qualquer que não me interessou, e eu mandei desabilitar.
Nada errado nisso; a máquina tinha a instrução de ligar essa opção se algum usuário, consciente ou não do que faz, resolvesse atender à condição que lhe ensinaram. Se o windows não ativasse o sticky keys, isso seria um erro; eu não perceberia, mas ainda assim.
Pensei nas estórias em que sinais são combinados entre pessoas – e um incauto, sem querer, se encaixa perfeitamente na descrição, na mesma hora e lugar – e com a ausência do contato realmente esperado. Em especial, uma história antiga do mickey, publicada num dos primeiros números do Pato Donald – A minnie deseja um chapéu vermelho e, usando-o, é confundida com uma outra rata que levaria um rubi para uma quadrilha e deveria ser interceptada por um homem com uma caixa de bombons, para que este a levasse ao esconderijo. A rata aquela encontra o mickey, que leva uma caixa de bombons para a minnie. Assim os dois, por causa de um chapéu, resolvem um caso de roubo de jóias.
Por causa de um chapéu, na vida real muito provavelmente seriam apenas mortos. E por coisas assim – por um chapéu, por um chocolate, por ler um blog – por gostos e desejos prosaicos, que não deveriam dizer nada, muitas vezes há quem deseje ver em nós o que não há. Assim como usar um chapéu transforma uma rata em uma ladra de jóias, talvez ler este texto esteja transformando você num membro de uma sociedade internacional de espionagem, por exemplo.
Em “Moscou contra 007″, as senhas e contra-senhas para identificação de espiões do serviço secreto britânico são algo como “O senhor tem fósforos?” “Uso isqueiro” “Tanto melhor” “Enquanto funcionam”. Neste caso, basta alguém pedir fósforos e responder que isqueiros são melhores para ser tomado por um espião. No caso de um fumante, as probabilidades de algo do tipo acontecer são bem altas.
Chesterton escreveu que somente o homem louco acha que tudo tem um motivo; isso porque acha que todos estão em perpétua conspiração contra ele, e por isso se aquele senhor assobia Penny Lane, isso é um sinal combinado entre eles para atacá-lo. Não lhe ocorre que ele simplesmente tenha vontade de assobiar; todo doido se acha o centro do mundo, e todas as ações humanas devem levá-lo em conta de alguma maneira.
Daí é muito simples chegar a uma conclusão segregacionista – quem faz isso é paranóico, ou bandido, ou tem algo a esconder – não nós, pessoas normais, 90% da população. Se é assim, então 90% das gentes do mundo são loucos, bandidos ou espiões – porque é justamente essa maioria, da qual conheço uma pequena amostra, mas provavelmente representativa da totalidade, que vê nos atos descomprometidos, desmotivados, que mesmo esses 90% praticam diariamente – tudo, ameaças e sinais combinados, relatórios e pedidos de reforços – tudo, menos a simples e humana vontade de usar um chapéu ou assobiar.
9 09UTC agosto 09UTC 2005
Eu não abro não
Sou uma pessoa de poucos ídolos. Meu ego exagerado, conseqüência natural de meu imenso talento para tantas atividades diferentes, me impede de admirar outras pessoas. Mas confesso, aqui, que gosto muito de Sandy e Junior.
8 08UTC agosto 08UTC 2005
Medo de cachorro
(Para a Aposta#1 – veja aqui e saiba mais aqui. Vejam também a Dani, o Rinoceronte e o Porco)
Desde criança tive medo de cachorros. Os cães da rua, grandes como leões para meu metro e vinte de quinze anos atrás, não eram cães de rua – comuns em bairros residenciais e distantes – eram feras violentíssimas com dentes mui agudos, e um imenso ódio à minha pequena e adorável pessoa.
Entende-se, sem que eu tenha que dizer (mas digo), que nunca tive um cachorro. Não parando na hostilidade com os cachorros de rua, era sempre desconfiado que entrava nas casas de pessoas que tinham um daqueles assassinos peludos no quintal.
Simples lógica infantil; se tem dente é para morder, pois para sorrir decerto não é. Desesperava vendo humanos – meu suposto lado na guerra fria – acolhendo e alimentando em suas casas os inimigos. Na minha casa, nunca.
Isso tudo foi antes da proclamação da república, pois a mim me parece que tornei-me namorado de minha atual mulher, senhôura, esposa e cônjuge durante o governo Washington Luís; e ela mesma tinha um cachorro. O inimigo infiltrado chama-se Vicky.
A convivência entre nós dois (eu e o cachorro) foi-se tornando menos tensa após alguns anos, à medida que eu inventava apelidos carinhosos para ele, como Extreme Fungus, Cabeça-de-Fluff (é um poodle) e o mais habitual de tempos para cá, Comunista. As três coisas ele é, e não vai nisso ofensa que exagere a realidade; e tão comunista que quis votar no plebiscito contra a Alca e vive dizendo que a Venezuela é o país mais democrático da América do Sul.
Bem que eu queria mandá-lo para Cuba. Agora eu tenho um filho, e não gosto muito dos olhares gulosos que o bicho dá para ele. Simples lógica adulta: Cachorro, comunista, fabricante de luvas de boxe, se tem dente é para morder.
4 04UTC agosto 04UTC 2005
Media Watch
Link no Uol: Trabalhar com aborto é ato heróico, diz cineasta
Declaração do cineasta Todd Solondz na Entrevista: “Os Estados Unidos são o único país do mundo onde a pessoa que trabalha com abortos é vista como um herói, da mesma maneira que os policiais ou os bombeiros.”
Boa, UOL. É assim mesmo.
