Quando as pessoas morrem, talvez vão para o céu, a maioria delas. Deus é misericordioso. Mas acontece que há muitas moradas na casa do Pai; de forma que Deus pode deixar que entrem no céu todos os atletas de Cristo, que não vão me incomodar com seus pagodes evangélicos e cerveja sem álcool – basta que Deus os mande para a zona norte do paraíso, para uma churrascaria etérea, o que não vai deixar de ser celestial para eles.
Talvez haja regiões, cidades celestes para todos os tipos de gente, mesmo os crentes de subúrbio, os crentes de TV, os ecochatos, os fabricantes de guarda-chuvas. E deve existir um paraíso para os brasileiros; e se houver, deve ser assim:
Quando eles morrem, vão para o limbo, que é uma padaria com pagode e churrasco, numa tarde de sábado. Cartazes xerocados de um original todo impresso em Comic Sans avisam:
E no dia combinado, por volta das 08:30, todo mundo já está pronto para sair, inclusive o ônibus com uma pintura de ilha com coqueiro e o sol se pondo – Jéssicatur – que acabou de chegar. Jéssica é o nome da filha do dono da empresa de viação, que coincidentemente é também o motorista, e por coincidência maior ainda só tem aquele ônibus.
Começa a alegre viagem. Os jovens vão todos cantando “chora bananeira, bananeira chora, chora bananeira, meu amor não vá embora”. Uma coroa no segundo banco atrás do motorista já tirou a blusa, calor que tá fazendo, e está usando um chapeuzinho rosa para cobrir a parte de cima do seu biquini azul-marinho esbranquiçado e um pouco da sua banha branca azulada.
No meio do caminho, o ônibus pára e deixa algumas pessoas no purgatório. A rapaziada começa então a cantar “Au, au, au, vai descer quem mora mal”, e o motorista põe de novo o pé na tábua, enxugando o suor da testa e do bigode com uma toalhinha azul.
Agora faltaria pouco, se o motor do ônibus não fosse morrer mais à frente. Mas o motorista, que também é brasileiro e não desiste nunca, resolve a situação com sua habilidade e a colaboração dos passageiros que desceram e empurraram o carro.
Chegando no céu é só alegria. Forma-se uma fila, ou algo semelhante, e os jovens, sempre eles, puxam: “Eu / sou brasileiro eu sou / e vou pro céu eu vou / e ninguém vai me segurar – Nem o capeta!”. São Pedro tenta organizar a fila, que a essa altura já tornou-se um completo mafuá.
Todos com menos de trinta anos pulam como crianças atrás das câmeras de TV em um bairro pobre; quando um anjo age com um pouco mais de energia para organizar a entrada das pessoas, um sujeito de uns quarenta anos, de cavanhaque, berra que vai “dar queixa ao diretor”. Uma gorda comenta “será que eu passo nessa roleta, olha que porta estreita”.
Todos entram e a festa começa, se é que se pode dizer já não havia começado. Churrasco, pagode, sinuca, piscina. Grupos de aposentados, se entupindo de cerveja vagabunda, jogam baralho em mesas de alumínio, dessas que se dobram. Os adolescentes tentam bolinar as meninas na piscina, e ficam com raiva da velha que não vai embora, com os pés na água – comentando que a natação é o esporte mais completo.
Aparece então alguém que deve ser do clube, pois não veio no ônibus. Barba e cabelos longos, não muito ordenados. Expressão de quem carrega nos olhos toda doçura e justiça.
É ele. Um dos adolescentes cochicha para outro: “É ele, cara. Eu sei que é ele. Meu ídolo, tenho uma camisa com esse rosto estampado. Vou lá falar com ele”.
E sai correndo na direção do barbudo, gritando: “Che! Che! Que prazer te ver por aqui! Me dá um autógrafo?”
