Naïf Gendarme

1 01UTC setembro 01UTC 2004

Mulheres feias

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 10:54

Mulheres feias (todas) gostam de música chata. Na verdade, mulheres feias tendem a ser chatas em tudo, mas exageram na chatice estética – tanto apreço pelo insuportável parece explicar sua feiúra, que elas talvez considerem beleza. Uma mulher bonita e burra vai ouvir Saint-Saens (de preferência a obra, mas se você pronunciar o nome já está valendo) e ficar assombrada; incapaz de compreender algo tão mais artístico que o habitual, não conseguirá reagir, “nossa, que cara culto, ulto, ulto”. Uma mulher bonita e inteligente, e sou autorizado no assunto, pode adorar ou odiar, achar chato, o que seja – mas não vai se engrupir.

Já uma mulher feia, sempre quase burra ou mediana (duvido da existência de feias inteligentes ou burras demais), vai bocejar ouvindo Debussy, perguntar se você levou o lixo para fora no meio de uma ária de Haendel. Como são práticas essas mulheres feias; sonham em ter controle de tudo, associam sua distração usual com preguiça, chamam de vício em cafeína seu café, como se este não tivesse além da cafeína o cheiro, o sabor, a temperatura desejados. Riem somente de piadas vulgarmente primárias.

Não sou um polemista competente, confesso. Eu deveria escrever sobre todas as mulheres feias, impiedosamente, mas nem vos dou a chance de me fustigar: Eu sei que existem exceções e eu sei que beleza é um conceito relativo. A mulher feia, porém divertida, foi vista recentemente no Himalaia, andando junto com o Iéti, sujeito este muito espirituoso. Sobre a relatividade da beleza, bem, vocês me pegaram. Infelizmente (não para mim), a beleza não é relativa não, a beleza é um conceito bem do absoluto, eterno e imutável, e eu sou bem preconceituoso de achar que tudo que não é belo feio é.

Quem ama o feio o vê como se fosse belo, dizem-me os gênios familiares. Ah, fantasmas de sabedoria que não viram Nina pondo-me as mãos no pescoço, isso nada tem a ver com amor – Isso é anticristão, chego a dizer. Manda-nos o evangelho amar a todas as pessoas; se consideramos belos todos que amamos, não queremos de forma alguma que mudem. E se não queremos que o doente se cure, que o pecador se converta, para que serve tal amor? A doença e o pecado são feios, e o reino de Deus é o fim da feiúra.

Todos os problemáticos têm seus segredos, conhecidos tanto quanto nunca referidos pelos demais: os malas, os anti-sociais, os doentes em estado terminal; todos eles antes de dormir sofrem por algum motivo – carência de atenção durante a infância, trauma permanente; impotência ante a morte, vida irrealizada; o segredo das mulheres feias e chatas deixo para a investigação de algum Jacques Costeau temerário, mais apto a sobreviver nos maiores ermos da convivência humana que eu, que não largo mes petits plaisirs cotidianos.

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