Naïf Gendarme

3 03UTC maio 03UTC 2004

Síndrome de Solenidade

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 11:48

Padecem algumas pessoas da síndrome de solenidade, que pode ser o exagero de respeito no trato consigo e/ou com os outros. Estranhamente, é muito difundida entre humoristas (digo, estas pessoas que aqui no Brasil levam o nome), escritores cômicos ou semicômicos e quetais. Uma chamada para uma entrevista com um deles, em um site, dizia “O escritor brincalhão, pessoalmente, é tímido e quase sério”. Um outro, dizem, perdeu a cabeça com um fã que pediu uma piada. Deve odiar piadas.

Outra classe: Polítricos. Os empertigados homens, em seus amarfanhados ternos, transpiram dignidade – aquelas gotas cobrindo perenemente suas testas (as deles, leitores!) não são suor, são dignidade. Não brinque comigo, meu jovem.

Fechando nosso triângulo dos bobocas, trago o grupo dos executivos. Gente que joga RPG com a vida, ganhando pontos com MBA, estágios no exterior e sobrevivência a downsizings.

O que eles têm em comum? Que rufem os tambores; o que eles têm em comum é a crença de que são top of the top. A coroa do mundo. A cereja do Sundae. É a essa crença que chamo síndome de solenidade.

Todos estes pensam que chegaram ao ponto que todos querem chegar e na imaginam destino melhor que o próprio. São vencedores, e o problema com eles é justamente este. Todos acham que perder é ser menor na vida. O que eles não sabem é que eles nunca perderam porque nunca correram qualquer risco. Aí é fácil. Só que, assim, perderam toda a diversão, e nisto se origina a síndrome. Tornam-se the guys in the plastic bubble. Eu sofri muito, trabalhei muito, lutei muito, para você vir brincar comigo! Saia agora mesmo da minha bolha de plástico ou eu mando um segurança te baixar o cacete.

E pronto, chegou a respeitabilidade. Eu gostaria de ganhar um real cada vez que alguém acentua as qualidades de uma destas pessoas com palavras como guerreiro, batalha, superação. Pago dois sempre que um deles vencer uma guerra. E gostaria, claro, de ganhar um real sempre que algum deles diz “minha vida daria um livro” e que, instados a fazê-lo, dizem que “escrever um livro é muito fácil”. Pago o dobro se eles escreverem (eles mesmos, não vale ghost-writer) um livro que preste – não é fácil? Por favor, um realzinho na minha conta sempre que algum imbecil legislativo se apresentar como portador da solução para os problemas deste país. Ora, eu daria um braço se metade (?) dos vereadores deste brasilZão de Meu deus (ênfase nas maiúsculas) soubesse a diferença entre direita e esquerda e se a outra metade assumisse que não sabe – e procurasse aprender.

Eu adoraria ganhar um centavo cada vez que uma pessoa burra se orgulhasse da burrice que possui. Mas não ganho nada.

Todos têm defeitos, mas ninguém precisa amar alguns defeitos só porque os possui; a menos que ame suas verrugas, seus piolhos, sua feiúra. O que os portadores da síndrome fazem é romantizar (mal) seus defeitos: Isso não são verrugas, são cicatrizes da luta que tem sido minha vida, blah blah.

Quando eu era gordo, não gostava de ser chamado de gordo. Tentava (sempre inutilmente) usar certas roupas, aparecer sob certas luzes e mostrar-me sob certos ângulos que me possibilitassem exigir ser chamado de magro. Hoje estou em forma e quem mais me chama de gordo sou eu mesmo.Em resumo, não faço questão de ser visto como magro porque sou magro de fato. Por que será, então, que algumas pessoas desejam uma imagem respeitável?

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