Naïf Gendarme

5 05UTC março 05UTC 2010

eu ou o parceiro – parte dois

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 1:16

Aí ele me falou assim bora tomar uma cerveja cê tá doido é cara cerveja faz mal.  Ah então tá o que faz bem é matar todo mundo né nonato porra é cedo mermão. Deixei quieto porque o parceiro merecia ouvidos.

Mas quando o cara é pilantra ele se ferra por conta própria. O tal corno lá tá mais corno ainda hoje e eu tô com meu boi muito mais na sombra porque não adianta tirar onda quando você não sabe de verdade onde vale a pena meter a mão. Daí que outra vez eu tava fora do estado por umas três semanas e quando eu voltei foi uma festa, nego falando que num assalto no mercado perto lá de casa tinham matado um pm e os caras tavam quentes.

Era um tal de nego andando na rua parando moto e dando tapa na cara dos moleques quatro horas da tarde que nem vale a pena comentar. Caiu no meu colo o nome do vagabundo meio que de sorte, o dono do mercado não queria falar pra qualquer um dos homens lá e eu disse que tava devagar, querendo descanso, mas ele falou pô nonato esses caras fazem uma guerra pior que ser assaltado, tudo milico novo querendo quebrar vagabundinho a troco de qualquer merreca. Prefiro morrer numa grana contigo que sempre segura a onda por aqui, você ou o lactobacilo.

Aí eu olhei pra ele e falei, tu vai querer que seja eu ou o lactobacilo? Dá o nome e o vagabundo que resolveu fazer esse ganho aí na tua casa vai cair. Ele deu o nome e eu já sabia, era um mané que já tava visado na área do visconde, lá na ponte enviesada. Só que era um vagabundo liso e ainda não tinha caído e tava mais esperto que aquele ratinho ratatuile.

Rato que mexe em sopa quente termina cozido. Gratinei o cara e me aposentei. Nego nunca ficou sabendo se tinha sido eu ou parceiro.

Dia seguinte tava o parceiro no bar do Alex tomando cerveja com a pochete na mesa, tranquilão.

1 01UTC março 01UTC 2010

eu ou o parceiro – parte 1

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 0:58

A gente pegava os caras, jogava na parte de trás da kombi e quebrava na beira do rio. Sempre foi moleza. No dia seguinte aparecia boiando e todo mundo sabia que tinha sido eu ou o parceiro. Nunca deu problema. O que eles erravam era de pensar que tinha sido eu ou o parceiro. Era sempre nós dois. A gente era junto mesmo pra quebrar e pro que fosse também além de quebrar. No começo eu ainda esculachava, botava terror e mandava correr. Mas aí garoto no dia seguinte aparecia uns vagabundos na frente da minha casa e era uma merda. Na época minha filha era pequena e minha mulher não trabalhava. Na segunda vez que isso aconteceu, fiquei muito puto. A gente faz a bondade de deixar só como um aviso e a vagabundagem em vez de tomar jeito quer desafiar? Fiquei muito puto mesmo, cara. Chamei mais uns quatro parceiros de outras áreas e fizemos a limpa.

Não tinha esculacho. A gente pegava duas ou três kombis e ficava rodando. Deu madrugada, tá na rua de bobeira, a gente segurava. Aí no dia seguinte era sempre aquele papo: Foi o lactobacilo ou o nonato. Nonato sou eu, lactobacilo era o parceiro. Era eu ou ou parceiro. Nego achava que era uma sociedade, mas não era. Era parceria. Tudo junto, um dirigia e outro já ia esculachando quando queria relaxar, mas ninguém saia quebrando sozinho. Era eu e o parceiro.

Lactobacilo porque o cara é muito brancão, ele tem até hoje um jeito de yakult mesmo. O doido uma vez me apareceu com uma doze e disse que era pra gente usar, eu falei que não queria. Ele me chamou de viadinho, na zoação. O cara é mó branco, quase não pega mulher, e quer me chamar de viadinho porque minha arma cabe no porta luvas. Deixa ele. Sempre tem alguém pra dar uma zoada nessas saídas que a gente dá. Eu ou o parceiro, alguém sempre tá fazendo uma piada.

Tinha um maluco que tava me enchendo o saco numa época. Sabe quando o cara tá te devendo e finge que é você que depende dele pra você não ter manha de cobrar? Bicho liso a gente trata igual cobra, ou ele vai te tratar igual cobra na frente. Aí ele me deixava puto, que é o que eu tava falando, porque eu fazia uns serviços pra ele e o babaca ficava achando que era meu chefe. Bem na noite do dia que eu mandei ele à merda pela segunda vez, tava voltando pra casa e quem eu vejo, a mulher dele num ponto de ônibus bem nada a ver com a rota normal dela e um maluquinho do lado. A briga toda tinha sido por causa dela, aquela piranha. O otário lá se achando gostosão, mas era um corno que nem passava mais na porta. Aí ele me disse que a mulher dele tinha dito que eu tinha cantado ela.

Filhão, piranha até passa, e baranga até se encara. Mas piranha baranga não dá, e falei isso pro maluco que ficou todo ofendido. Mandei à merda, já te contei isso né, e fui seguir com a minha luta noutro ringue. Voltando pra casa, tranquilo, como te disse, tá lá a maluca com o rivaldo no ponto. Virei pro parceiro e falei “Bora tacar na mala?”. Ele falou “Tu tá maluco, rapá”. Eu falei “Sério”.

25 25UTC fevereiro 25UTC 2010

Blue mosca, vulnerasti cor meum – NOT

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 16:50

Não gosto de política e não meto minhas mãos no pote, mas se eu tivesse que pensar sobre uma orientação política eu provavelmente acabaria levando em conta o fato de que, quando direitistas criam um site para sacanear gente de esquerda, o resultado é sempre algo como o “Amanhã, ninguém sabe” ou o “Opinião Popular” – sites ótimos, muito engraçados.
Já este site aqui pode ter sido criado por

a) Esquerdistas querendo sacanear direitistas – e nesse caso, a sacanagem estaria muito malfeita;

b) Direitistas querendo sacanear esquerdistas – os mesmos esquerdistas da opção a, hipotéticamente tentando criar uma versão ideologicamente invertida de Iberê Jatobá, no ultrapassado formato de blog, 6 anos após o heyday da coisa.

Em resumo, o exemplo considerado parece demonstrar que sátira é um gênero de direita e isso por si só não me convence nem me impede de ser direitista. Mas levar em consideração tudo e reter o que é bom é prova de piedade cristã, tempera a salada e fortalece as vista.

E ainda, se o mundo realmente é um lugar bizarro, pode ser que o site seja de direitistas falando sério. Isso provavelmente não seria suficiente para me fazer sair por aí balançando minha bandeira do PSTU, mas contraburguês já pensaria em votar 16.

Conclusão: 66,67% de chance de ser uma boa sátira de direita contra 33,33% de PROBABILIDADE de ser uma maluquice de um Reinaldo Azevedo que comeu muita farinha MAIS o decreto papal contra o comunismo. Continuo verticalista.

Beijso

6 06UTC janeiro 06UTC 2010

Somente um olhar

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 13:13

Hoje vamos estudar o profundo paralelismo entre as obras de Dante Alighieri e Claudinho e Buchecha. Como todos sabemos, a obra máxima da dupla carioca é uma belíssima canção chamada “Nosso Sonho”:

Gatinha, quero te encontrar, vou falar, sou Claudinho
Menina Musa do Verão, você conquistou o meu coração, to vidrado, hoje eu sou, um Buchecha apaixonado.

Bem inseridos na tradição poética ocidental, a apresentação do bardo, que pede a atenção dos ouvintes (vou falaaaar….) e a invocação à musa,  Claudinho e Buchecha não buscam um vanguardismo de aparências. As rimas são diretas e abundantes, o ritmo bem modulado, tudo isso nos coloca a certeza: Estamos diante de verdadeiros poetas.

Naquele lugar, naquele local, era lindo o seu olhar
Eu te avistei, foi fenomenal, Houve uma chance de falar
Gostei de você, quero te alcançar, Tem um ímã que fez o meu hospedar
Nossas emoções, eram ilícitas, que apesar das vibrações
Proibia o amor, em nossos corações.

Rimas e assonâncias internas (local / fenomenal, avistei/gostei/você), um enjambement sofisticado (tem um imã que fez o meu hospedar nossas emoções), cadências muito bem construídas. Tecnicamente, temos uma estrofe admirável.

No entanto, críticos menos preparados e preconceituosos não conseguem penetrar fundo na poética de C&B. Apressados, correm a declarar que construções como …Tem um ímã que fez o meu hospedar Nossas emoções, eram ilícitas, que apesar das vibrações… não fazem sentido. São as mesmas pessoas que não sabem que “adjudicar” significa “autorizar, permitir” e que portanto, não o compreendendo, julgam esta uma obra inferior. Mas chegaremos logo a esta parte.

A beleza da construção mencionada é fulgurante, quando encontrada. Os poetas, sem intenções vanguardistas, se saíram com uma solução que exige, do leitor, a atitude de amor e atenção para cm o poema, sem a qual é escusado que a leia. Um poema sobre o amor que se eleva das coisas terrenas não pode dispensar o mesmo amor – a mesma impulsão para o alto – na hora de ser lido. Quem o lê com os olhos baços daquele preconceito que nasce dos vários ódios que nos enchem as horas jamais encontrará a vivíssima poesia que mora naqueles versos.

Mas divago! Diga, então, o leitor por si mesmo:

Tem um ímã que fez o meu hospedar Nossas emoções. Nossas emoções eram ilícitas, (o) que apesar das vibrações….

O que temos aí? Um ímã, atrator, que faz outro hospedar emoções. Mas não quaisquer emoções, se não as do poeta e de sua amada. O ímã possui dois polos. Os polos opostos se atraem; já os polos equivalentes se repelem. ´

Lembremos, aqui, que Dante se referia a Beatrice como sua “beatificadora”, isto é, aquela de quem provêm sua beatitude. Se a beatitude de Dante vinha de Beatrice, é porque ele não a possuia em si; um fluxo muito semelhante ao eletromagnético, o que justifica a decisão do nosso poeta de utilizar um imã como objeto.

A física moderna já investigou as relações entre o eletromagnetismo, a energia atômica, a força gravitacional, a mecânica dos corpos celestes e outras beatitudes encontradas em nosso universo; mas continuam as buscas por teorias, resultados e indicadores que conduzam a uma ciência de tudo, uma teoria universal que concilie todos os conhecimentos num universo teórico que funcione – tanto quanto o universo físico, de fato, funciona. Dante cristalizou, num verso famoso, a base filosófica desta ciência de tudo: A Divina Comédia termina com uma menção ao “Amor que move o sol e as outras estrelas“. Sim, que move o sol, as estrelas e faz com que os polos opostos dos ímãs se atraiam mutuamente.

Digno de nota é também o recurso estilístico que une as duas frases. As emoções, hospedadas pelo imã na primeira oração, tornam-se sujeito da próxima. No entanto, não se canta duas vezes nossas emoções, o que simboliza a união entre poeta e amada. Através de suas emoções, o poeta e sua amada se unem; através de sua expressão em palavras, o poema une a atração e sua ilicitude. E por falar em ilicitude…

Ziguezaguiei no vira, virou, você quis me dar as mãos, não alcançou
Bem que eu tentei, algo atrapalhou a distância não deixou
Foi com muita fé, nessa ilustração,que eu não dei bola para a ilusão.
Homem e mulher, vira em inversão bate forte o coração

Aqui, temos uma referência clara às dificuldades passadas por Dante durante o período em que, graças ao seu malfadado envolvimento com a politica florentina, passou por dificuldades e perseguições e finalmente o exílio – ziguezagueou no viravirou, virou em inversão. Na vida pessoal, infelizmente, o poeta não foi capaz de voar quando lhe tiraram o chão.

Tumultuado o palco quase caiu
Eu desditoso, e você se distraiu
Quando estendi as mãos, pra poder te segurar
Já arranhado e toda hora vinha uma
A impressão que o palco era de espuma
Você tentou chegar, não deu pra me tocar

Nesta estrofe, Claudinho e Buchecha emulam, magistralmente, as emoções do auge da luta política de Dante, a instabilidade social de seu lugar e tempo (palco de espuma) culminando com seu afastamento de sua cidade e de Beatrice, já morta quando de seu exílio, mas presente simbolicamente em Florença.

Nosso sonho não vai terminar
Desse jeito que você faz
Se o destino adjudicar esse amor poderá ser capaz, gatinha
Nosso sonho não vai terminar
Desse jeito que você faz
E depois que o baile acabar, vamos nos encontrar logo mais

O sonho que não termina: Como lemos na Vita Nuova, Dante soube, desde quem em Beatrice os olhos pousou, que não deixaria de amá-la, durante toda a eternidade. E no entanto, não o vemos tentar nenhum passo prático que o pusesse mais perto de sua amada. Ele permite, sem mais, que “o destino adjudique“.  E o que é toda a Comédia senão um baile que, acabado, permite a Dante e Beatrice se encontrarem “logo mais“?

Na Praça da Play-Boy, ou em Niterói.
Na fazenda Chumbada ou no Coez.
Quitungo, Guaporé nos locais do Jacaré.
Taquara, Furna e Faz-quem-quer.
Barata, Cidade de Deus, Borel e a Gambá.
Marechal, Urucânia, Irajá.
Cosmorana, Guadalupe, Sangue-areia e Pombal
Vigário Geral, Rocinha e Vidigal
Coronel, mutuapira, Itaguaí e Sacy.
Andaraí, Iriri, Salgueiro, Catirí
Engenho novo, Gramacho, Méier, Inhaúma, Arará.
Vila Aliança, Mineira, Mangueira e a Vintém.
Na Posse e Madureira, Nilópolis, Xerém.
Ou em qualquer lugar, eu vou te admirar.

Aqui temos uma analogia com os sete círculos do inferno, que um crítico especializado poderia deslindar, com um generoso conhecimento de sociogeografia carioca. No entanto, a intuição nos mostra que assim é, mesmo que não detalhemos o porquê. Aos ávidos por provas, basta-me, no momento, mencionar duas coisas.

Uma é a melodia do trecho. Ouça atentamente e perceba como a canção vai ficando mais alegre; precisamente, quando Buchecha canta “Coronel, mutuapira, Itaguaí, Sacy”. Isto serve para simbolizar a proximidade do paraíso. Repare também que a primeira palavra aí cantada é Coronel: Símbolo da hierarquia militar, e portanto, da ordem, fortemente constrastando com os vários nomes de origem indígena que representam a anarquia em que viviam os povos nativos do Brasil antes da colonização portuguesa, e por extensão, do inferno, reino da desordem.

A segunda é mais simples. Repare que a última localidade mencionada é Xerém. Aos que não conhecem, Xerém é um distrito de Duque de Caxias já praticamente chegando em Petrópolis, que é uma cidade serrana. Lembre, agora, que o Purgatório ficava numa montanha! É uma perfeita menção à obra de Dante que praticamente não se percebe entre as rimas da estrofe.

Os teus cabelos cobriam os lábios teus
Não permitindo encontrar os meus
E você é baixinha, gatinha eu vou parar
Mas tudo isso porque eu me sinto coroão
Tu tens apenas metade da minha ilusão
Seus doze aninhos permitem somente um olhar

Descrevendo um encontro com sua Beatrice funkeira, o poeta cria um momento de grande beleza, digno do cânon ocidental. Primeiro: A estrofe tanto se aplica ao encontro de Dante com Beatrice no céu quanto aos dois que tiveram na terra, durante a vida de Beatrice. Não há nada que determine o local onde os cabelos da amada encobrem seus lábios, os impedindo de encontrar os do poeta.

Veja-se, também, que o poeta menciona que a amada “tem apenas metade da minha ilusão”, isto é, metade de seu tempo  nesta terra. Agora, abra o leitor sua edição da “Vita Nuova” e veja se não é isso que Dante diz. Através de complexos indicadores astrológicos, Dante nos diz ter ele dezoito e Beatrice nove anos quando pela primeira vez se avistaram.

O último verso foi alvo de maiores críticas. No entanto, é uma chave perfeita para o poema. Em primeiro lugar, o poeta ter errado ao trocar “nove” por “doze aninhos” é perdoável, em tempos como os nossos, nos quais não mais se ensinam o latim e a astrologia clássica nas escolas. Mas sempre resta a possibilidade de que Beatrice tenha morrido com doze anos! Negar isso é negar a possibilidade de uma liberdade poética. Recusar o verso por causa da dúvida é recusar a poesia do que não se pode saber, se não por um vislumbre.

E é, também ao afirmar que a tenra idade de sua amada permite “somente um olhar“, que Claudinho & Buchecha afirmam a superioridade de sua poesia. Como sabemos, o próprio Dante ensina, no capítulo X de “Il Convito”, que entre as três coisas a que o amor move o amante, está a defesa da coisa amada. E amar uma jovem, ainda não preparada para o amor conjugal, significa defendê-la; defendê-la de tudo, inclusive de que o poeta, esquecido dao suprema dignidade do amor, queira extrair de sua amada mais do que somente um olhar.

5 05UTC janeiro 05UTC 2010

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 3:57

Você pode me achar um perfeito, completo, fornidíssimo idiota. Isso não lhe decresce nem um centímetro. Você pode dizer que meu Deus humilhado, crucificado numa cidade asiática, de ossos contados, não é muito diferente de um monstro voador de espaguete. Você pode armar um circo ou, no picadeiro, dizer que eu e alguns de meus amigos somos a visão do inferno.

Você pode fazer tudo isso e mais várias coisas. Você só não conseguirá me impedir de pensar: “Tomara que o céu seja muito grande”. Pensar, não: Rezar, que  é atividade permitida pela Santa Madre Igreja e acessível a um sujeito que se cerca de direitistas. Tomara que seja grande, e tomara que a camaradagem do porteiro seja maior que sua justiça.

Porque eu sei que não mereço ir pra lá. E você pode fazer tudo aquilo que descrevi no primeiro parágrafo ou pode agir totalmente ao contrário. Mas de modo nenhum você vai conseguir merecer estar no céu; porque simplesmente, ir pro céu significa receber de Deus uma graça final, suprema e inesgotável em palavas: A vida eterna e plena, que somos incapazes de merecer por natureza, mas à qual somos chamados desde o nascimento de nossas almas.

Há pouco, eu percebi que havia estabelecido uma relação curiosa com Deus. Constantemente, eu me armava em credor da Divindade e estabelecia metas e prazos para meu Criador. E já quase me considerava a salvo do inferno, independente de o quanto ou quão gravemente pecasse.

É óbvio que isso já era um pecado dos mais piores. Mas o que me assustou foi a possibilidade de que, na verdade, não tenha sido algo que passou, e eu percebi – mas algo que eu notei ter existido no passado, mas que continua existindo no presente e eu não vejo.

O Pedro Sette Câmara escreveu aqui sobre a sensibilidade atual aos presentes desagradáveis, ou no mínimo não desejados, e conta sobre um presente que, desembrulhado apenas, pareceu inadequado a quem o ganhou; mas que acabou tendo um impacto enorme sobre a sua vida.

E hoje eu estava assistindo um documentário sobre uma doença de pele que causa um enorme sofrimento e leva suas vítimas à morte prematura. Minha esposa se encarregou do comentário inevitável que só fazemos muito poucas vezes: Temos que dar graças a Deus pela saúde do nosso filho e nossa…

E eu concordei, claro. Ela estava jogando e eu não queria desconcentrá-la.

Mas o que justificaria àqueles doentes não dar graças a Deus? Não estavam vivos? Não eram capazes de lutar contra um sofrimento real e seguir suas vidas, sob a ameaça real de uma morte provavelmente próxima? E isso não fazia deles pessoas superiores a quase todas as outras em algum aspecto – pessoas com uma história que ninguém mais tem?

Essa sua maneira de chamar ao meu Deus de “Monstro de espaguete” – não é isso, entre outras coisas, que faz de você uma pessoa diferente de todas as outras? Não é assim que, um dia, o monstro de espaguete vai reconhecer sua alma entre todas as outras?

E se o monstro de espaguete não existir – ainda assim, eu sei que não mereço o que ele não me deu, mas que de alguma forma eu vim a ter. Ainda assim, inexplicavelmente, tudo está bom demais – tudo, como direi? muito imerecido. E tudo muito imerecidamente melhorando.

And even though it all goes wrong, I´ll stand before the Lord of Song with nothing on my tongue but Hallelujah.

23 23UTC dezembro 23UTC 2009

Num condomínio

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 9:17

Acabo de mandar sair daqui

dois pobres. A mulher grávida, quase

parindo, e o marido eu nem vi

direito. Os retratos do atraso

desta nação. Graças a Deus subi

ao meu apartamento, este palazzo,

inteiro e vivo. Talvez fosse o caso

de dar algum a eles… Mas mereci

tudo que tenho! E agora, dissipar

meu patrimônio, construído em cima

do meu trabalho, entre os vagabundos?

Não, é só minha esta vista do mar.

É uma vergonha que ninguém reprima.

Cadê o governo? Não tem jeito este mundo.

*

Acabam de sair daqui três caras

que queriam saber onde encontrar

um tal de “Rei Nascido”. Olha, repara

muito bem, se eu me deixo enrolar.

Eu sei que só queriam me roubar.

Um rei recém nascido? É muita cara

de pau. Ainda por cima, tinham para

o tal rei ouro, incenso, e o quê? Ah,

sim, mirra. O que é mirra? Que conversa.

Disse pra eles: “Vão, vão procurar,

venham logo depois me dizer onde

ele está, quero honrá-lo, tenho pressa!”

Se for mesmo um bebê, melhor matar

agora, antes que cresça e entre no bonde.

*

Um anjo acaba de sair daqui.

Anunciava uma grande alegria

que era para todo o povo. Xi,

eu não gosto de povo. Dá azia

até lembrar do povo. Uma vez vi

uma velha sem dentes, na Bahia,

toda alegrona. Aê, Jesus. Podia

vir alegrar a mim, que sei que oui

é como os franceses dizem sim,

que tenho plano de saúde e moro

num condomínio ao nível da minha classe.

Mas um anjo pro povo, e com latim -

Gloria in excelsis Deo - incenso, ouro

e mirra! Não sei bem pra quê, mas passo.

*

Olha só quem chegou: Papai Noel!

Pela janela, pois a chaminé

ainda não ficou pronta. Olha o céu

como está estrelado! Quanta fé

nos une neste mesa! Ah, o meu

presente é uma beleza! O teu é

também! A ceia está servida. Quer

peito ou coxa? Ano que vem, eu

pretendo tantas coisas. Uma delas

é ser mais generoso. Não que agora

eu me sinta egoísta, estou bem, mas

nunca é demais, né? Acende aí as velas.

Menino, para de comer! Não ora

antes da ceia? É assim que se faz!

Poema de Natal – Jorge de Lima

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 8:18
Ó Meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto das crianças.
Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei Corcovado.
E quem passar
vendo o menino
há de dizer: ali vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição!
— Aquele menino que vai ali
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós!
— Bom dia, Jesus! – dirá uma voz.
E outras vozes cochicharão:
— É o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão!
— Como está forte! – Nada mudou!
— Que boa saúde! Que boas cores!
(Dirão adiante outros senhores.)
Mas outra gente de aspecto vário
há de dizer ao ver você:
— É o menino do carpinteiro!
E quando voltarmos
pra casa, à noite,
e forem pra o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.
Eu hei de inventar pretextos sutis
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
Segure com força a minha mão.

16 16UTC dezembro 16UTC 2009

Eu tenho cabelocom

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 7:57

Estive pensando em abrir um restaurante que servisse apenas sopas e caldos. Quem viesse comer escolheria  a partir de um caldápio.

*

Davi, aparentemente, começou a compor. Procurei os versos nas internets para ver se é plágio – até onde o google me diz, não é. Sua primeira música é assim:

C                     F

Eu tenho cabeeeeelo

C                 F

Você é careeeeeeca

C                 F

Eu sou boniiiiiiiiiito

C              F

e você é feiooooooooso

(bridge: C Dm F G Dm A F G7)

*

Só para constar, o careca não sou eu. Meu cabelo continua o mesmo.

10 10UTC dezembro 10UTC 2009

Dicta & Contradicta

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 11:00

Na edição 4 da Dicta & Contradicta, você pode ler seis poemas inéditos que estarão em meu próximo livro, “A Canção do Pão Líquido”. Veja aqui e compre aqui.

20 20UTC outubro 20UTC 2009

Arquivado em: Uncategorized — Igor Barbosa @ 19:31

Quando eu era adolescente, gostava de ir a um shopping próximo da escola e ficar no café, onde normalmente eu pedia um café simples que vinha com um par de biscoitos amanteigados. Eu ficava lá, sentado, escrevendo e desenhando, observando as pessoas que vão ao shopping fazer o que quer que as pessoas façam no shopping – provavelmente as mesmas coisas que eu faço, hoje que não há mais o café nem os biscoitos amanteigados naquele canto onde, se eu fumasse naquela época em que eu não me lembro de ser proibido fumar no shopping, eu comporia uma imagem demasiado cliché, exceto pelos meus 16 anos, inaparentes na minha altura e barba da época. Fui bem alimentado durante a infância e tenho a barba de muito boa qualidade, sempre tive, desde que ela começou a nascer, já uniforme e progressivamente enchendo o rosto até atingir o seu apogeu, que se mantém até hoje. Mas enfim, eu ia ao shopping, bebia café e isso provavelmente tinha seu charme, ou pelo menos o momento e lugar seriam bem apropriados para eu fazer o famoso sucesso entre as mulheres, o que de fato eu fazia, pois era mais divertido que apenas sentar e beber café. Uma vez uma moça aparentemente 5 anos mais velha que eu parou em frente ao balcão, e ficou ali fingindo não saber o que queria, porque na verdade ela estava obviamente interessada em mim, o que os fatos posteriormente comprovaram – acompanha. Ela estava lá, toda cheia de dúvida, e eu disse “não sabe o quer? prova isso” e ela pegou a minha xícara sem hesitar, provou e pediu o mesmo que eu pra moça do balcão, esta feinha que doía e muito antipática. Era café, e quando veio café simples ela disse que não, que estava errado, porque o meu era completamente diferente, etc e eu disse para ela sentar na mesa, peguei os biscoitinhos que vinham junto com o café e joguei dentro da xicara e perguntei se ela estava com a mão limpa. Ela disse que sim, então eu esperei dois minutos e a fiz misturar tudo com o dedo, o que ela achou ainda mais nojento que jogar biscoitos no café, mas por algum motivo fez tão direitinho quanto um adolescente com bastante habilidade, e chupou o dedo melhor do que eu o teria feito, não fosse um cavaleiro e soubesse onde aquele dedo havia estado antes de totalmente cercado de café e biscoitinhos amanteigados derretidos. Acontece que biscoitos amanteigados = açúcar + gordura + amido, quero dizer, o efeito dos biscoitos no café era o mesmo de adicionar creme, adoçá-lo um pouco mais e tornar o conjunto todo mais espesso, por causa do amido; se duvidar, pegue uma embalagem destas de sopa instantânea, e está lá o amido, o ingrediente mágico que transforma um caldo de temperos vagos em um grosso e confortável creme. O amido é o melhor amigo do fabricante de comida. O fato é que o café dela ficou idêntico ao meu, porque é isso mesmo que eu fazia, jogar os biscoitos dentro e mexer com os dedos de uma moça bonita ou com uma colher, na falta de moça bonita. Ela ficou lá, sentada ao meu lado, bebendo o café cremoso mais estranho da vida dela até então e, na falta de pão de queijo, me comendo com os olhos. Depois de uns 10 minutos, pegou uma caneta na bolsa, anotou o telefone no meu caderno, levantou e foi embora.

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